OPERAÇÃO INTRAMUROS – Proponho no site Fluxos Musicais discutirmos temas que são normalmente escopo dos acadêmicos, antropologos, etnomusicologos, historiadores, semioticistas etc. Mas nesse espaço (www.fluxosmusicais.com) gostaria de discutir o papel da Etnomusicologia nos dias de hoje. Vejo quase sempre um preconceito dos pesquisadores com as formas atuais da música, porque são consideradas diluídas, poluídas de intervenções externas.Ramón Pelinski, etnomusicólogo argentino, nos propõe um olhar revelador sobre a pesquisa em música fazendo uma reavaliação de sua trajetória e dos pressupostos traçados pela academia. E certo momento, chega até a propor que a disciplina seja extinta! Vejo uma falta de ligação entre a realidade e o que se pesquisa, hiatos enormes que impedem que o que se estuda dentro das universidades venha a campo, reverbere na sociedade. Eu, sendo musicista ligada à pratica musical, mas também pesquisadora, observo as dificudades de acesso às pesquisas. Se não entrasse no circuito academico, eu estaria, hoje,,por fora de muita coisa legal que anda acontecendo. Mas por que, os intelectuais, de maneira geral, ficam tão alijados da propria realidade? São poucos aqueles que conseguem um diálogo com pessoas comuns da sociedade e que façam de seus estudos algo que possa ser compartilhado por todos, democraticamente. Vejo academicos se esbofeteando por verbas minguadas, por projetos que não saem do papel, de excelentes idéias que morrem antes de irem para prática, porque não conseguem dialogar entre seus pares, porque um da panela x e outra do grupo y… Isso denota uma certa falta de maturidade, segunrança no proprio taco ou excesso de arrogancia? Uma hora isso teria que acabar, não? Afinal de contas, boa parte desses pesquisadores estão vinculados às universidades públicas, e por isso, acho que temos o direito, como cidadãos, de requisitar que esses se reportem ao mundo do que andam fazendo. Então, com esse site, proponho um desafio de levar essas pesquisas, que ficam encerradas nos circulos acadêmicos, para o mundo real. Que elas sejam mais divulgadas e amplamente discutidas pela sociedade. Vamos implodir os muros da academia?

Nesses meses que se passaram, fiquei um bom tempo lendo sobre as questões ligadas ao site Fluxos Musicais, onde sou editora. A idéia é debater temas que ficam meio de lado, nas discussões sobre música. Embora a frequencia seja meio esparsa, os comentarios tem sido bem interessantes e acho que se conseguisse divulgar melhor, ele poderia se transformar num site de discussões mais atuais sobre a música. Portanto, fica aqui o meu convite para quem se interessa por temas como:

TROCANDO OS EIXOS – Os binômios centro-periferia, culto-popular, cultural-comercial, underground-stablishment, street-corporativo são antigos mas continuam a operar nos dias de hoje muito mais amplificados, evidentemente. Assim como o hip hop invadiu eventos culturais voltados para a o público de classe média[1], o funk carioca, cuja expressão foi fixada em territórios do morro, agora, é tocado nas casas noturnas das capitais do país para entretenimento de uma jovem elite. Até que ponto a periferia está fora e o centro está dentro? As fronteiras entre centro e periferia se tornam cada vez mais tênues.

PURO OU DILUÍDO? INVENTANDO TRADIÇÕES – Hobsbawn nos apresenta um texto interessantíssimo sobre o kilt escocês que todos nos acreditamos que é a mais pura tradição daquele país, verdadeiro símbolo nacional junto à gaita de foles. No entanto, nas suas pesquisas, ele descobriu que aquela saia de lã xadrez é moderna; a vestimenta foi inventada, no final do séc. XVIII e início do XIX, para substituir a saia de couro, considerada “indício de barbarismo, o distintivo de montanheses velhacos, indolentes e chantagistas, que representavam para a Escócia civilizada e histórica mais um inconveniente do que uma ameaça[2]”. Além disso, os escoceses, tentando se livrar da influência irlandesa, trataram da elaboração artificial de novas tradições das Terras Altas que foram apresentadas como legítimas, originais e muito antigas. Até mesmo uma literatura de caráter escocês foi forjada por Sir Macpherson em cumplicidade com o ministro James Macpherson que forjaram documentos para fundamentar uma nova história do país! Ariano Suassuna ficaria até suave diante de tal malogro!

Com a difusão da cultura popular nos editais de cultura, observamos Coco Raízes de Arcoverde, Mestre Salustiano e Jongo da Serrinha ganhando uma certa repercussão na mídia, mas há quem torça o nariz para tal situação, pois segundo o mestre Darcy do Jongo da Serrinha, foram necessárias algumas mudanças na performance do grupo para se adequar às apresentações para gente de fora da comunidade, mas o “produto” oferecido tem o carimbo da autenticidade, do verdadeiro jongo, do original… Está certo ou errado? Tal atitude seria aprovada ou não pelos pesquisadores?

Vemos também a música influenciada por aspectos regionais com viés contemporâneo como o Nação Zumbi, a cantora mexicana Lila Downs, o coletivo cigano Balkan Beat Box entre outros. Não sendo pertencentes diretos das comunidades, estes artistas seriam apropriadores indevidos de temas do imaginário popular? Estariam eles usurpando valores nacionais em prol de um enriquecimento pessoal?

Que mudanças ocorrem quando a cultura é institucionalizada como o Carnaval carioca e a Axé music? O jornalista TTCatalão nos aponta “a velha caricatura do “puro” e o “diluído”. E isso nos faz pensar no desespero dos puristas que temem que seu “objeto de estudo acadêmico” seja maculado. E quanto às mudanças fica aquela incômoda sensação da “macumba pra turista” na velha linha formol do folclore para o consumo ralo de exotismo do brilho fácil como purpurina desbotada. E para esquentar mais o debate, Luciana Mesquita entrevista a “Velha do Cerrado”, uma “personagem da cultura popular” que nos instiga a pensar a própria pesquisa, questionando as nossas perguntas. Será que não está na hora de revisar esses conceitos? Que tal deixar um pouco de lado os jargões acadêmicos para pensarmos todos juntos? O antropólogo Paulo Müller também contribuirá para pensarmos juntos essa questão.

O JAPÃO DA LIBERDADE – Vamos abordar aqui a presença musical das músicas dos povos migrantes no Brasil. Vemos uma série de grupos e associações de musica japonesa, italiana, árabe, húngara, portuguesa, alemã, espanhola promovendo suas formas musicais, mas não consigo vê-las mesclando-se aos elementos brasileiros. São guetos que mantém fragmentos de uma cultura de um determinado período, congeladas no tempo. O Japão da Liberdade é um Japão que não existe mais. Será que houve um “processo de fricção de musicalidades”[3]? Alice Satomi nos fala sobre a presença da música japonesa em São Paulo baseando-se nas suas pesquisas de mestrado e doutorado. Teremos também a colaboração da pesquisadora Ana Maria Kiefer que produziu o CD “Cancioneiro da Imigração”. Ela, talvez, possa nos apresentar elementos do que ela percebeu nas suas andanças por essa metrópole para esquentar a discussão.

SAMBA NO MUSEU – O samba, já de origem miscigenada, ganha o status de Patrimônio Cultural da Humanidade. O que significa isso? Carlos Sandroni, responsável pelo projeto junto ao IPHAN, nos contará como foi o processo de tombamento do Samba do Recôncavo na Bahia. Em que medida os acervos e registros podem não apenas preservar a tradição mas também dar um sentido histórico a ela?

WORLD MUSIC, ESSE FENÔMENO TÃO MAL COMPREENDIDO – A mídia brasileira insiste em afirmar que a World Music é um engodo, que ela existe para homogeneizar o local, globalizando tudo e todos. Essa é a primeira impressão, mas isso não é bem verdade. Vamos analisar alguns casos em que a World Music se apresentou como uma porta de entrada (com direito a tapete vermelho) para artistas do chamado Terceiro Mundo e como participar desse nicho significou uma melhora significativa na vida daqueles músicos. Paulo Müller irá discutir alguns aspectos referentes ao assunto e nós pretendemos colaborar com exemplos que temos tocado no Planeta Som, de “formas sadias” da World Music. Há, sim, gente de todo o mundo criando e recriando músicas interessantíssimas a cada dia. O movimento da “periferia do mundo” para o centro não pára. São mais de 300 festivais de World Music na Europa em um ano sempre com a presença maciça de cantores africanos, árabes e latinos. O que isso significa? Há problemas? Há estereótipos? Sim, com certeza, mas vamos tentar observar esse panorama com mais cuidado checando as informações e avaliando caso a caso. Paulo Müller nos propõe analisar o caso do grupo sul-africano Ladysmith Black Mambazo; o do músico malinês Ali Farka Touré, considerado o blueseiro de Mali, assim o polêmico caso do Deep Forest que se utilizou de gravações dos pigmeus africanos.

 

Quem quiser dar seus pitacos, please, entrem no site www.fluxosmusicais.com

 


[1] Herschman, Micael,. O Funk e o Hip-Hop invadem a cena. Ed. UFRJ, 2005

[2] Hobsbawn, E. Ranger, T. A invenção das tradições.Paz e Terra. 2006. São Paulo.

[3] Conceito trazido por Acácio Piedade, um dos nossos debatedores.

Ja dizia Goethe: “Se queres ser melhor do que nós, caro amigo, viaja!”. Não pretendo superar ninguém, apenas mobiliar minha cabeça. Assim, estou afivelando malas para buscar o sol e a luz e repensar o segundo semestre. Nos vemos em uma semana!

É assim que me sinto. Vou “mobiliar” minha cabeça. Saio por uns dias para escrever minha dissertação de mestrado. Vou pro meio do mato onde não pega celular nem tem internet. Assim, fico na minha, apenas lendo, estudando e escrevendo, sem outras interferências. PArei de escrever nesse blog, porque pra ser sincera, canso um pouco da net. Ela demanda demais, nao? É informação demais, coisa demais para saber, ler, estudar, conhecer! um mundo sem fim. As vezes preferia me manter ausente disso tudo, mas é impossível ! Bom, agora é hora de colocar as ideias em ordem. Estabelecer as prioridades nessa pesquisa com os Surui. A ver no que dá. Me desejem sorte.

A literatura vem do vento sagrado que põe as almas a se sentirem vivas, e de mãos atadas a outras almas, dançando sem se preoucupar com a sincronia, nos crava no corpo uma postura de ver o mundo”

MORIN 

A voz possui, não apenas qualidades materiais – timbre, altura, tessitura e tom –, mas também qualidades simbólicas. As mitologias exploraram ao extremo as virtualidades da voz. A voz ultrapassa a língua, ultrapassa a palavra. A Antropologia –  somada à fonologia, à psicologia, à fonética e à história – seria uma ferramenta fundamental para propiciar uma reflexão científica sobre a voz.  Paul Zumthor, Escritura e nomadismo.

Mas são tradições orais que “criam uma rede de intercâmbios vocais vinculados a comportamentos mais ou menos cifrados, cuja finalidade essencial consiste em manter a continuidade de uma percepção da vida e de uma experiência coletiva sem a qual o indivíduo ficaria abandonado” Zumthor

O PODER DO CANTO

Quando uma pessoa canta, algo a impulsiona para isso. Esse canto pode estar relacionado à cura, ao trabalho, à comunicação entre as pessoas, ao prazer estético. Suas funções variam não apenas de povo para povo, mas de classes para classes, de clãs para clãs, de grupos étnicos dentro de um mesmo país.   Citado pelo Tambiah pra falar dos poderes do ritual. Música e dança (ritmo e movimento ritmado) são grandes condutores/decantadores de atividade psíquica, em muitas religiões de transe.  

Vejamos alguns exemplos:

A casta dos cantores MAWAKA no norte da Nigéria evoca, através da palavra cantada, o poder dos espíritos. Assim esses homens cuidam das famílias muçulmanas que os pagam para tal “serviço”. O canto, nesse caso, é um canto de poder, evocatório de entidades que ajudam a família a se manter bem, ou de resolver problemas. Ele tem um papel que se liga ao sagrado, mas ele é exercido como uma profissão qualquer. 

O pajé indígena no Brasil usa de seus dotes vocais para curar pessoas, seu canto vai de murmúrios,  até melodias chorosas que despertam os espíritos da floresta. Com os sons, esse homem evoca os animais e aciona o campo das almas. Ele, em geral, passa uma iniciação espiritual que os coloca numa posição especial dentro do grupo indígena a que pertence. Ele não é um homem comum. Tem o poder da cura e usa sua voz para isso. Não recebe nada para isso, mas ele tem privilégios dentro do seu grupo. 

Os cantores tibetanos obtêm de seus sons graves e guturais uma paisagem sonora capaz de criar uma limpeza mental, um estado de relaxamento e de meditação, necessários nos cultos budistas. Assim esses cantores conseguem obter uma profunda integração com o mundo espiritual. Seu canto é uma oração coletiva que move a todos que assistem. 

O cantor de música popular do mundo ocidental, quando se transforma em ídolo popular pode (ou não) se transformar em agente de causas políticas e ou sociais. Ele simboliza algo que aquela sociedade quer ouvir ou simplesmente exercer o fascínio do poder, do glamour, da ascensão social por ele conquistada.  

Durante o ritual da Paixão, mulheres cantam suas ladainhas com velas acesas na mão. Pedem aos santos que as protejam. Fazem promessas. Com voz aguda e anasalada, elas vivem um dia de purificação. Na Sardenha, homens criam polifonias sonoras de tons graves que imitam o som dos animais. Assim eles exercem seu ofício de pastores. Assim como o aboio do vaqueiro que “conversa” com o boi. Em ambos os casos, o canto é de trabalho, sua função é prática e objetiva.  

O cantor sufi une a música a poesia e com total devoção, improvisa longamente com melismas cheios de energia. Chamam a isso de party, termo cunhado pelos ingleses. Quanto mais esse músico se empolga no improviso (e para isso há uma técnica), mais o grupo que o assiste se emociona e lhe dá mais dinheiro. É puro êxtase!   

No candomblé, o Obaluaiê, chefe espiritual da casa, canta seu oriki, cantiga  do orixá. Ele “recebe o santo” ao som dos tambores que invocam as divindades africanas. Essa junção de ritmo e melodia provoca êxtase em todos que participam do ritual 

Um homem curdo canta canções de amor para uma multidão de curdos num campo de guerra no Iraque. Ele vive exilado. Seu país não existe mais. Seu canto provoca profunda comoção e alegria naqueles que erguem suas metralhadoras.

Que poder esse homem exerce sobre essas pessoas? O que esses cantos têm em comum?  Todos eles parecem atuar no subconsciente coletivo de um grupo. Estão presentes no cotidiano do dia-a-dia ou em situações religiosas. Todos eles exercem o poder do canto. Exercem um poder, de certa forma. Mas omo esses cantos todos se articulam hoje? Como se apresentam para o mundo globalizado?

(…) A repetição de figuras de cervídeos, rinocerontes nos rupestres nas cavernas tratam-se de uma representação intencional de animais de caça e não de uma escrita ou quadros. Para além do conjunto simbólico das imagens existiu forçosamente um contexto oral com o qual o conjunto simbólico era coordenado e reproduziu os valores espacialmente. O mesmo se encontra quando os australianos executam na areia figuras em espiral que exprimem simbolicamente o desenvolvimento do mito do lagarto ou da formiga do mel, ou quando os Ainus materializam um bocado de madeira esculpida a récita mítica do sacrifício do urso.

O gesto e a palavra –  Andre Leroi –Gourhan

 Em 1987, gravei com o meu grupo Mawaca uma música afegã que foi registrada no primeiro CD da banda com o nome de Aa lalo bacho. No arranjo,  eu fundia o tema afegão com uma cantiga de ninar brasileira, o Tutu Marambá. O arranjo soava um tanto mórbido e dava ares sombrios aos dois temas musicais, embora ingênuos. Alguns anos depois, com os Estados Unidos bombardeando Cabul, li uma matéria na revista Songlines que comentava sobre a queima de instrumentos musicais em praça pública por conta da repressão do Taleban. A música era proibida e quem portasse qualquer instrumento e era preso quem tocasse musica em algum toca-fitas. Aquilo me chocou tremendamente.

Como só conhecia essa canção (retirada de um livro de lullabies), meu interesse pela música desse país cresceu e fui procurar mais informações e sons de lá, tarefa quase impossível. Dai escrevi um texto que resolvi publicar aqui. E minha pergunta é: amusica ainda está banida no Afeganistão?   

Que mudanças foram provocadas nesse ambiente hostil à musica?

O que será que aconteceu com a música tradicional desse país destruído por uma guerra de mais de 30 anos?

Quando leio críticas sobre CDs de World Music na imprensa brasileira, morro de tristeza… Incrível como esse gênero é mal compreendido. Os jornalistas comentam com tamanha ironia sobre “sons étnicos” como se fossem menores ou menos importantes… não entendo o que se passa na cabeça deles… hoje mesmo, li na Rolling Stone um box falando sobre os CDs da Six Degrees e o tom da crítica é de matar… tudo bem que na World Music tem muita coisa ruim, mas é assim em qualquer gênero, seja ele o pop, o rock, a MPB!… nem tudo o que se produz é bom, há, com certeza, produto(re)s oportunistas na World Music… mas não se pode generalizar, jornalista que se preza, precisa conhecer a praia que está pisando, e tem que se informar sobre a World Music com mais seriedade. Normalmente, os grandes periodicos colocam criticos de Jazz ou de MPB para escrever uma matéria sobre World Music. O resultado quase sempre é desastroso. NUNCA no Brasil consegui ler uma crítica decente contendo bom conteúdo de algum CD de World Music… NUNCA!

 Pensanso nisso, escrevi um texto para um seminario na PUC que falava sobre o papel da World Music na musica atual. Está lá nos textos, apra quem quiser ler a respeito.

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