Arquivo de abril, 2007

sobre a literatura

Publicado: abril 27, 2007 em citações

A literatura vem do vento sagrado que põe as almas a se sentirem vivas, e de mãos atadas a outras almas, dançando sem se preoucupar com a sincronia, nos crava no corpo uma postura de ver o mundo”

MORIN 

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a voz por zumthor

Publicado: abril 24, 2007 em citações

A voz possui, não apenas qualidades materiais – timbre, altura, tessitura e tom –, mas também qualidades simbólicas. As mitologias exploraram ao extremo as virtualidades da voz. A voz ultrapassa a língua, ultrapassa a palavra. A Antropologia –  somada à fonologia, à psicologia, à fonética e à história – seria uma ferramenta fundamental para propiciar uma reflexão científica sobre a voz.  Paul Zumthor, Escritura e nomadismo.

rede de intercâmbios vocais

Publicado: abril 24, 2007 em citações

Mas são tradições orais que “criam uma rede de intercâmbios vocais vinculados a comportamentos mais ou menos cifrados, cuja finalidade essencial consiste em manter a continuidade de uma percepção da vida e de uma experiência coletiva sem a qual o indivíduo ficaria abandonado” Zumthor

o poder do canto

Publicado: abril 24, 2007 em Musica, pesquisas

O PODER DO CANTO

Quando uma pessoa canta, algo a impulsiona para isso. Esse canto pode estar relacionado à cura, ao trabalho, à comunicação entre as pessoas, ao prazer estético. Suas funções variam não apenas de povo para povo, mas de classes para classes, de clãs para clãs, de grupos étnicos dentro de um mesmo país.   Citado pelo Tambiah pra falar dos poderes do ritual. Música e dança (ritmo e movimento ritmado) são grandes condutores/decantadores de atividade psíquica, em muitas religiões de transe.  

Vejamos alguns exemplos:

A casta dos cantores MAWAKA no norte da Nigéria evoca, através da palavra cantada, o poder dos espíritos. Assim esses homens cuidam das famílias muçulmanas que os pagam para tal “serviço”. O canto, nesse caso, é um canto de poder, evocatório de entidades que ajudam a família a se manter bem, ou de resolver problemas. Ele tem um papel que se liga ao sagrado, mas ele é exercido como uma profissão qualquer. 

O pajé indígena no Brasil usa de seus dotes vocais para curar pessoas, seu canto vai de murmúrios,  até melodias chorosas que despertam os espíritos da floresta. Com os sons, esse homem evoca os animais e aciona o campo das almas. Ele, em geral, passa uma iniciação espiritual que os coloca numa posição especial dentro do grupo indígena a que pertence. Ele não é um homem comum. Tem o poder da cura e usa sua voz para isso. Não recebe nada para isso, mas ele tem privilégios dentro do seu grupo. 

Os cantores tibetanos obtêm de seus sons graves e guturais uma paisagem sonora capaz de criar uma limpeza mental, um estado de relaxamento e de meditação, necessários nos cultos budistas. Assim esses cantores conseguem obter uma profunda integração com o mundo espiritual. Seu canto é uma oração coletiva que move a todos que assistem. 

O cantor de música popular do mundo ocidental, quando se transforma em ídolo popular pode (ou não) se transformar em agente de causas políticas e ou sociais. Ele simboliza algo que aquela sociedade quer ouvir ou simplesmente exercer o fascínio do poder, do glamour, da ascensão social por ele conquistada.  

Durante o ritual da Paixão, mulheres cantam suas ladainhas com velas acesas na mão. Pedem aos santos que as protejam. Fazem promessas. Com voz aguda e anasalada, elas vivem um dia de purificação. Na Sardenha, homens criam polifonias sonoras de tons graves que imitam o som dos animais. Assim eles exercem seu ofício de pastores. Assim como o aboio do vaqueiro que “conversa” com o boi. Em ambos os casos, o canto é de trabalho, sua função é prática e objetiva.  

O cantor sufi une a música a poesia e com total devoção, improvisa longamente com melismas cheios de energia. Chamam a isso de party, termo cunhado pelos ingleses. Quanto mais esse músico se empolga no improviso (e para isso há uma técnica), mais o grupo que o assiste se emociona e lhe dá mais dinheiro. É puro êxtase!   

No candomblé, o Obaluaiê, chefe espiritual da casa, canta seu oriki, cantiga  do orixá. Ele “recebe o santo” ao som dos tambores que invocam as divindades africanas. Essa junção de ritmo e melodia provoca êxtase em todos que participam do ritual 

Um homem curdo canta canções de amor para uma multidão de curdos num campo de guerra no Iraque. Ele vive exilado. Seu país não existe mais. Seu canto provoca profunda comoção e alegria naqueles que erguem suas metralhadoras.

Que poder esse homem exerce sobre essas pessoas? O que esses cantos têm em comum?  Todos eles parecem atuar no subconsciente coletivo de um grupo. Estão presentes no cotidiano do dia-a-dia ou em situações religiosas. Todos eles exercem o poder do canto. Exercem um poder, de certa forma. Mas omo esses cantos todos se articulam hoje? Como se apresentam para o mundo globalizado?

(…) A repetição de figuras de cervídeos, rinocerontes nos rupestres nas cavernas tratam-se de uma representação intencional de animais de caça e não de uma escrita ou quadros. Para além do conjunto simbólico das imagens existiu forçosamente um contexto oral com o qual o conjunto simbólico era coordenado e reproduziu os valores espacialmente. O mesmo se encontra quando os australianos executam na areia figuras em espiral que exprimem simbolicamente o desenvolvimento do mito do lagarto ou da formiga do mel, ou quando os Ainus materializam um bocado de madeira esculpida a récita mítica do sacrifício do urso.

O gesto e a palavra –  Andre Leroi –Gourhan

o taleban e a música

Publicado: abril 24, 2007 em Musica

 Em 1987, gravei com o meu grupo Mawaca uma música afegã que foi registrada no primeiro CD da banda com o nome de Aa lalo bacho. No arranjo,  eu fundia o tema afegão com uma cantiga de ninar brasileira, o Tutu Marambá. O arranjo soava um tanto mórbido e dava ares sombrios aos dois temas musicais, embora ingênuos. Alguns anos depois, com os Estados Unidos bombardeando Cabul, li uma matéria na revista Songlines que comentava sobre a queima de instrumentos musicais em praça pública por conta da repressão do Taleban. A música era proibida e quem portasse qualquer instrumento e era preso quem tocasse musica em algum toca-fitas. Aquilo me chocou tremendamente.

Como só conhecia essa canção (retirada de um livro de lullabies), meu interesse pela música desse país cresceu e fui procurar mais informações e sons de lá, tarefa quase impossível. Dai escrevi um texto que resolvi publicar aqui. E minha pergunta é: amusica ainda está banida no Afeganistão?   

Que mudanças foram provocadas nesse ambiente hostil à musica?

O que será que aconteceu com a música tradicional desse país destruído por uma guerra de mais de 30 anos?

world music não tem boas críticas

Publicado: abril 24, 2007 em Musica

Quando leio críticas sobre CDs de World Music na imprensa brasileira, morro de tristeza… Incrível como esse gênero é mal compreendido. Os jornalistas comentam com tamanha ironia sobre “sons étnicos” como se fossem menores ou menos importantes… não entendo o que se passa na cabeça deles… hoje mesmo, li na Rolling Stone um box falando sobre os CDs da Six Degrees e o tom da crítica é de matar… tudo bem que na World Music tem muita coisa ruim, mas é assim em qualquer gênero, seja ele o pop, o rock, a MPB!… nem tudo o que se produz é bom, há, com certeza, produto(re)s oportunistas na World Music… mas não se pode generalizar, jornalista que se preza, precisa conhecer a praia que está pisando, e tem que se informar sobre a World Music com mais seriedade. Normalmente, os grandes periodicos colocam criticos de Jazz ou de MPB para escrever uma matéria sobre World Music. O resultado quase sempre é desastroso. NUNCA no Brasil consegui ler uma crítica decente contendo bom conteúdo de algum CD de World Music… NUNCA!

 Pensanso nisso, escrevi um texto para um seminario na PUC que falava sobre o papel da World Music na musica atual. Está lá nos textos, apra quem quiser ler a respeito.