Arquivo da categoria ‘pesquisas’

Mais uma oficina chegando!  Agora é a vez de apresentar as músicas indígenas que pesquisamos, eu e Berê, para o livro ‘A Floresta Canta: uma expedição sonora por terras indígenas do Brasil’, lançado recentemente pela Editora Peirópolis. O livro foi lançado na Livraria da Vila no dia 15 de março.  (http://www.editorapeiropolis.com.br/2014/04/24/a-floresta-canta-musicas/) capafloresta

A oficina tem como objetivo desenvolver práticas musicais com repertório indígena, abordando músicas dos povos Paiter-Suruí, Ikolen-Gavião, Krenak, Mbyá-Guarani entre outros. Por meio dessas práticas, a oficina pretende estimular a reflexão sobre a grande diversidade cultural do Brasil e desmitificar a ideia de que as músicas indígenas são todas iguais. Atividades como cantar em diferentes línguas indígenas, entrar em contato com conteúdos mitológicos, ouvir o som de determinados instrumentos, perceber a forma como a música se insere na vida cotidiana indígena fazem parte da prática musical a ser desenvolvida nessa oficina. Em paralelo à prática, desenvolveremos uma reflexão sobre o papel da oralidade nessas tradições, que se encontra ligada intrinsecamente à musicalidade, proporcionando assim, uma experiência das nossas mais remotas origens, além de também propor possíveis formas de utilização do repertório indígena em sala de aula.

Dia 25 de abril, sábado, das 9h às 13h.

Investimento- R$110,00 (só a oficina) ou R$135,00 (oficina+ livro)  

Teca Oficina de Música Rua Ministro Gastão Mesquita, 141Perdizes – Oeste – (011) 3083-2294

Inscrições com maucha@tecaoficinademusica.com.br

http://www.tecaoficinademusica.com.br/

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Diante da dificuldade de conseguir alguém para reformar o atual site do Mawaca, que está em flash e cheio de informações (www.mawaca.com.br) resolvi eu mesma criar um sitezinho no Wix para colocar as informações e novidades sobre o projeto Cantos da Floresta, um turnê pelo Norte do Brasil patrocinada pela Petrobrás. Vai todo o grupo Mawaca para lá e nos encontraremos com 6 diferentes povos indígenas em cada cidade que aportarmos para trocarmos figurinhas e convidá-los para participar dos nossos shows. Será uma oportunidade e tanto travar esse contato direto com os indígenas, conhecer suas músicas, ver o quão conseguiremos interagir com esse universo tão distante do nosso.

Como sou nova no metier de fazer sites, ele ainda está em fase de experimentação  e nem tudo está lá. A ideia é ir colocando as informações sobre a viagem aos poucos para deixar nossos fãs sempre antenados com a gente.

O link do site é http://www.wix.com/magdapucci/mawaca-cantos-da-floresta2. Aguardo seus comentários e sugestões.

Acabo de ver que saiu um livro sobre os instrumentos e a música da Guiné, escrito por Isabela Aranzadi. Agora é tentar achar para comprar por aqui.

http://www.buala.org/pt/palcos/africa-de-ida-y-vuelta-uma-viagem-musical-por-isabela-aranzadi 


Lila Downs gravou uma música chamada Arenita Azul que eu adorei desde a primeira ouvida. Depois de um tempo,  Mawaca foi convidado a  fazer parte da Coletânea da Revista Caras e precisávamos de uma música mexicana! Qual escolhi? Arenita Azul, é claro! Dai, fui buscar entender o que significava a letra.

Arenita azul
de ‘onde salió
anoche cayó l’agua
la destapó
Ere cubana?
no soy cubana
ere jarocha?
no soy jarocha
qué quiere ser mi maí?
soy mariposa

Desde que te fuiste
no he visto flores
ni lo pajaro cantan
ni l’agua corre

http://www.youtube.com/watch?v=VUKpsERa-VI

Não entendia muito bem a relação da areia azul com a mariposa, mas sabia que a música fazia uma crítica a política americana de vetar a entrada de mexicanos em terras americanas. Recusados, eles tentam atravessar a fronteira em Oaxaca e muitos deles morrem. Lila Downs sempre foi uma cantora engajada com as coisas mexicanas e coisa parou ai…

Depois, quando fui escrever o livro De outros cantos do mundo com a Heloisa Prieto, http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=40481,  dei mais uma pesquisada nos outros significados possiveis dessa letra. Fui atrás da Areia Azul, que fui descobrir que é um fenômeno típico da região de Oaxaca.  Nas praias dessa região, existe um tipo de areia que concentra  muito ferro e por isso, tem uma cor azulada que só é percebida quando chove muito e a areia branca se esvai e deixa aparecer esse tom azulado que fica por debaixo da parte branca.

Por isso, a letra diz:  durante a noite quando cai a chuva, a areia azul  é “destapada” ou seja, se descobre a cor azul que fica escondida por debaixo da areia branca… Dai, evidente, que há uma alusão à cor morena dos  jarochos que são mencionados na letra e ao preconceito contra eles.  Jarocho é um grupo étnico mexicano que tem uma cultura particular que vivem em Veracruz,  mas que parece não ser muito bem aceito no resto do México.

Localizei na Santa Internet mais info sobre os jarochos!  http://www.flickr.com/photos/kdogg981/2987351577/ e lá consta resumidamente que há diversas conotações  para a palavra JAROCHO é ampla e pode tanto se relacionar a um povo mestiço (africanos e cubanos) que fazia parte da polícia que atuava em Veracruz assim como pode se referir a bagunceiros que ali viviam ou aos bandos de músicos baderneiros que, para se diferenciar dos mariachis, inventaram um tipo de músicaque ficou conhecido como Son Jarocho.

O que parece ser ponto em comum é que havia um preconceito grande em relação aos jarocho e por isso eles são citados na canção. São de pele escura e parecem “chamar problema”….

É evidente que a mariposa, também citada na letra, fala da vontade de ser livre como uma borboleta. Mas ontem a noite, ao pesquisar imagens sobre a tal areia azul e da mariposa mexicana, vim a saber que existe um tipo de mariposa de Monarch que imigra no verão e ocupa uma área

de vários milhões de kms metros quadrados.  Localizei essa informação no blog de José Antonio Gavinha e ele escreve o seguinte: No início do inverno, essas mariposas voam para uma pequena área deste país  para hibernar e acasalar na primavera. E depois do sono e do sexo, dar à luz e morrer… E cada nova geração repete esse processo, guiada apenas pelo instinto, uma única diáspora e um único retorno. Para morrer no lugar em que nasceu. Todos os anos, sem nunca ver mais do que uma primavera!


Destino trágico, não?


Ele postou uma foto linda que impressiona!!

Gainha ainda coloca outras coisas notáveis:
– a migração é impressionante – mesmo voando só de dia e em grupo,
estas borboletas conseguem percorrer até cerca de 2.500 quilómetros em
25 dias; durante a noite alimentam-se de uma planta que é venenosa
para a maioria dos predadores, que logicamente as deixam seguir em
paz.
– todos os anos borboletas às dezenas de milhões (sim, milhões)
convergem para algumas minúsculas manchas de floresta, todas a mais de
3.000 metros de altitude, situadas perto de uma pequena cidade com um
nome indígena (qual a cidade, é a terceira pergunta);
– no inverno, entrar numa destas florestas é uma experiência única – tudo, tudo (troncos, ramos, chão) está coberto por “cachos” de borboletas. Mesmo dormentes, elas precisam de um pequeno movimento contínuo das asas para respirar; e esse movimento, feito por milhões de borboletas ao mesmo tempo, origina um zumbido permanente e estranho que só acentua a magia do lugar.


Essas mariposas Monarch migram dos EUA ou do Canadá para o México para um cidade chamada El Rosario em Michoacan, a 200 km da Cidade do México. Mais informações sobre esse fenômeno encontrei no site da National Geographic  http://news.nationalgeographic.com/news/2003/06/0610_030610_monarchs.html

Só então é que percebi essa linda relação que o compositor (autor desconhecido, infelizmente) fez entre o fenômeno das mariposas imigrantes com a areia azul que fica encoberta pela branca se referindo à pele morena e a situação de humihação que esses cidadãos mexicanos passam ao tentar atravessar a fronteira do México com os Estados Unidos (ou à humihação que a milícia jarocha fazia passar os outros mexicanos? )

Pois bem, não digo sempre que uma simples canção pode nos trazer um mundo de informações? E assim revelar coisas de um lugar profundas e ainda com poesia! Isso é maravilhoso! É por isso que amo o que eu faço com o Mawaca! Mesmo depois de anos cantando essa música ainda descubro relações para mim totalmente desconhecidas e que revelam coisas lindas desse mundão de meu Deus… Que alegria!

 

Por que escolhi a música para o repertório do Mawaca, não sabia bem ao certo… mas agora que vi que ela tem essa simbologia toda, fico mais entusiasmada para sempre cantá-la com o Mawaca! Se você quiser ouvir essa música com o Mawaca, ela só existe no livro De todos os cantos do mundo editado pela Cia. das Letrinhas (vem um CD com as músicas relacionadas às histórias de cada uma delas) ou na coletânea da Caras não mais disponível atualmente.

mariposas monarch para blog magda post arenita

Mariposas Monarch

 

preparando minha viagem para amsterdam

Publicado: julho 11, 2010 em pesquisas
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Fui convidada para fazer doutorado  na Universidade de Amsterdam. Já terei aulas no curso de Etnomusicologia e terei orientação do prof. Wim van der Meer. Estou super animada com a ideia de morar 4 meses fora, ainda mais numa cidade como Amsterdam, que eu adoro.

amsterdam

OPERAÇÃO INTRAMUROS – Proponho no site Fluxos Musicais discutirmos temas que são normalmente escopo dos acadêmicos, antropologos, etnomusicologos, historiadores, semioticistas etc. Mas nesse espaço (www.fluxosmusicais.com) gostaria de discutir o papel da Etnomusicologia nos dias de hoje. Vejo quase sempre um preconceito dos pesquisadores com as formas atuais da música, porque são consideradas diluídas, poluídas de intervenções externas.Ramón Pelinski, etnomusicólogo argentino, nos propõe um olhar revelador sobre a pesquisa em música fazendo uma reavaliação de sua trajetória e dos pressupostos traçados pela academia. E certo momento, chega até a propor que a disciplina seja extinta! Vejo uma falta de ligação entre a realidade e o que se pesquisa, hiatos enormes que impedem que o que se estuda dentro das universidades venha a campo, reverbere na sociedade. Eu, sendo musicista ligada à pratica musical, mas também pesquisadora, observo as dificudades de acesso às pesquisas. Se não entrasse no circuito academico, eu estaria, hoje,,por fora de muita coisa legal que anda acontecendo. Mas por que, os intelectuais, de maneira geral, ficam tão alijados da propria realidade? São poucos aqueles que conseguem um diálogo com pessoas comuns da sociedade e que façam de seus estudos algo que possa ser compartilhado por todos, democraticamente. Vejo academicos se esbofeteando por verbas minguadas, por projetos que não saem do papel, de excelentes idéias que morrem antes de irem para prática, porque não conseguem dialogar entre seus pares, porque um da panela x e outra do grupo y… Isso denota uma certa falta de maturidade, segunrança no proprio taco ou excesso de arrogancia? Uma hora isso teria que acabar, não? Afinal de contas, boa parte desses pesquisadores estão vinculados às universidades públicas, e por isso, acho que temos o direito, como cidadãos, de requisitar que esses se reportem ao mundo do que andam fazendo. Então, com esse site, proponho um desafio de levar essas pesquisas, que ficam encerradas nos circulos acadêmicos, para o mundo real. Que elas sejam mais divulgadas e amplamente discutidas pela sociedade. Vamos implodir os muros da academia?

o poder do canto

Publicado: abril 24, 2007 em Musica, pesquisas

O PODER DO CANTO

Quando uma pessoa canta, algo a impulsiona para isso. Esse canto pode estar relacionado à cura, ao trabalho, à comunicação entre as pessoas, ao prazer estético. Suas funções variam não apenas de povo para povo, mas de classes para classes, de clãs para clãs, de grupos étnicos dentro de um mesmo país.   Citado pelo Tambiah pra falar dos poderes do ritual. Música e dança (ritmo e movimento ritmado) são grandes condutores/decantadores de atividade psíquica, em muitas religiões de transe.  

Vejamos alguns exemplos:

A casta dos cantores MAWAKA no norte da Nigéria evoca, através da palavra cantada, o poder dos espíritos. Assim esses homens cuidam das famílias muçulmanas que os pagam para tal “serviço”. O canto, nesse caso, é um canto de poder, evocatório de entidades que ajudam a família a se manter bem, ou de resolver problemas. Ele tem um papel que se liga ao sagrado, mas ele é exercido como uma profissão qualquer. 

O pajé indígena no Brasil usa de seus dotes vocais para curar pessoas, seu canto vai de murmúrios,  até melodias chorosas que despertam os espíritos da floresta. Com os sons, esse homem evoca os animais e aciona o campo das almas. Ele, em geral, passa uma iniciação espiritual que os coloca numa posição especial dentro do grupo indígena a que pertence. Ele não é um homem comum. Tem o poder da cura e usa sua voz para isso. Não recebe nada para isso, mas ele tem privilégios dentro do seu grupo. 

Os cantores tibetanos obtêm de seus sons graves e guturais uma paisagem sonora capaz de criar uma limpeza mental, um estado de relaxamento e de meditação, necessários nos cultos budistas. Assim esses cantores conseguem obter uma profunda integração com o mundo espiritual. Seu canto é uma oração coletiva que move a todos que assistem. 

O cantor de música popular do mundo ocidental, quando se transforma em ídolo popular pode (ou não) se transformar em agente de causas políticas e ou sociais. Ele simboliza algo que aquela sociedade quer ouvir ou simplesmente exercer o fascínio do poder, do glamour, da ascensão social por ele conquistada.  

Durante o ritual da Paixão, mulheres cantam suas ladainhas com velas acesas na mão. Pedem aos santos que as protejam. Fazem promessas. Com voz aguda e anasalada, elas vivem um dia de purificação. Na Sardenha, homens criam polifonias sonoras de tons graves que imitam o som dos animais. Assim eles exercem seu ofício de pastores. Assim como o aboio do vaqueiro que “conversa” com o boi. Em ambos os casos, o canto é de trabalho, sua função é prática e objetiva.  

O cantor sufi une a música a poesia e com total devoção, improvisa longamente com melismas cheios de energia. Chamam a isso de party, termo cunhado pelos ingleses. Quanto mais esse músico se empolga no improviso (e para isso há uma técnica), mais o grupo que o assiste se emociona e lhe dá mais dinheiro. É puro êxtase!   

No candomblé, o Obaluaiê, chefe espiritual da casa, canta seu oriki, cantiga  do orixá. Ele “recebe o santo” ao som dos tambores que invocam as divindades africanas. Essa junção de ritmo e melodia provoca êxtase em todos que participam do ritual 

Um homem curdo canta canções de amor para uma multidão de curdos num campo de guerra no Iraque. Ele vive exilado. Seu país não existe mais. Seu canto provoca profunda comoção e alegria naqueles que erguem suas metralhadoras.

Que poder esse homem exerce sobre essas pessoas? O que esses cantos têm em comum?  Todos eles parecem atuar no subconsciente coletivo de um grupo. Estão presentes no cotidiano do dia-a-dia ou em situações religiosas. Todos eles exercem o poder do canto. Exercem um poder, de certa forma. Mas omo esses cantos todos se articulam hoje? Como se apresentam para o mundo globalizado?