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Hoje entrevistei Vinicius e Daniel do Projeto Coisa Fina, uma big band que toca Moacir Santos, um dos grandes gênios da música brasileira, embora pouco conhecido.

A entrevista rolou no Teatro da Vila, esquina da Jericó com a Rodésia, um espaço onde toca o Coletivo Elefantes, isto é, um pool de big bands que se juntaram para tocar toda segunda no esquema catraca livre, paga-se o que se acha devido.

É uma moçada que agita, que toca bem e que sabe o que quer. Ouvi o CD que eles acabaram de lançar e o resultado é surpreendente principalmente depois do antológico Ouro Negro produzido pelo Adnet.

Para quem não conhece ai vai o site deles

www.projetocoisafina.com

PS. A entrevista vai ao ar na radio norueguesa NRK no programa Jungeltelegrafen, onde tenho feito colaborações mensais.

http://www.nrk.no/programmer/sider/jungeltelegrafen/

OPERAÇÃO INTRAMUROS – Proponho no site Fluxos Musicais discutirmos temas que são normalmente escopo dos acadêmicos, antropologos, etnomusicologos, historiadores, semioticistas etc. Mas nesse espaço (www.fluxosmusicais.com) gostaria de discutir o papel da Etnomusicologia nos dias de hoje. Vejo quase sempre um preconceito dos pesquisadores com as formas atuais da música, porque são consideradas diluídas, poluídas de intervenções externas.Ramón Pelinski, etnomusicólogo argentino, nos propõe um olhar revelador sobre a pesquisa em música fazendo uma reavaliação de sua trajetória e dos pressupostos traçados pela academia. E certo momento, chega até a propor que a disciplina seja extinta! Vejo uma falta de ligação entre a realidade e o que se pesquisa, hiatos enormes que impedem que o que se estuda dentro das universidades venha a campo, reverbere na sociedade. Eu, sendo musicista ligada à pratica musical, mas também pesquisadora, observo as dificudades de acesso às pesquisas. Se não entrasse no circuito academico, eu estaria, hoje,,por fora de muita coisa legal que anda acontecendo. Mas por que, os intelectuais, de maneira geral, ficam tão alijados da propria realidade? São poucos aqueles que conseguem um diálogo com pessoas comuns da sociedade e que façam de seus estudos algo que possa ser compartilhado por todos, democraticamente. Vejo academicos se esbofeteando por verbas minguadas, por projetos que não saem do papel, de excelentes idéias que morrem antes de irem para prática, porque não conseguem dialogar entre seus pares, porque um da panela x e outra do grupo y… Isso denota uma certa falta de maturidade, segunrança no proprio taco ou excesso de arrogancia? Uma hora isso teria que acabar, não? Afinal de contas, boa parte desses pesquisadores estão vinculados às universidades públicas, e por isso, acho que temos o direito, como cidadãos, de requisitar que esses se reportem ao mundo do que andam fazendo. Então, com esse site, proponho um desafio de levar essas pesquisas, que ficam encerradas nos circulos acadêmicos, para o mundo real. Que elas sejam mais divulgadas e amplamente discutidas pela sociedade. Vamos implodir os muros da academia?

site fluxos musicais

Publicado: fevereiro 8, 2008 em Musica, planeta som, textos

Nesses meses que se passaram, fiquei um bom tempo lendo sobre as questões ligadas ao site Fluxos Musicais, onde sou editora. A idéia é debater temas que ficam meio de lado, nas discussões sobre música. Embora a frequencia seja meio esparsa, os comentarios tem sido bem interessantes e acho que se conseguisse divulgar melhor, ele poderia se transformar num site de discussões mais atuais sobre a música. Portanto, fica aqui o meu convite para quem se interessa por temas como:

TROCANDO OS EIXOS – Os binômios centro-periferia, culto-popular, cultural-comercial, underground-stablishment, streetcorporativo são antigos mas continuam a operar nos dias de hoje muito mais amplificados, evidentemente. Assim como o hip hop invadiu eventos culturais voltados para a o público de classe média[1], o funk carioca, cuja expressão foi fixada em territórios do morro, agora, é tocado nas casas noturnas das capitais do país para entretenimento de uma jovem elite. Até que ponto a periferia está fora e o centro está dentro? As fronteiras entre centro e periferia se tornam cada vez mais tênues.

PURO OU DILUÍDO? INVENTANDO TRADIÇÕES – Hobsbawn nos apresenta um texto interessantíssimo sobre o kilt escocês que todos nos acreditamos que é a mais pura tradição daquele país, verdadeiro símbolo nacional junto à gaita de foles. No entanto, nas suas pesquisas, ele descobriu que aquela saia de lã xadrez é moderna; a vestimenta foi inventada, no final do séc. XVIII e início do XIX, para substituir a saia de couro, considerada “indício de barbarismo, o distintivo de montanheses velhacos, indolentes e chantagistas, que representavam para a Escócia civilizada e histórica mais um inconveniente do que uma ameaça[2]”. Além disso, os escoceses, tentando se livrar da influência irlandesa, trataram da elaboração artificial de novas tradições das Terras Altas que foram apresentadas como legítimas, originais e muito antigas. Até mesmo uma literatura de caráter escocês foi forjada por Sir Macpherson em cumplicidade com o ministro James Macpherson que forjaram documentos para fundamentar uma nova história do país! Ariano Suassuna ficaria até suave diante de tal malogro!

Com a difusão da cultura popular nos editais de cultura, observamos Coco Raízes de Arcoverde, Mestre Salustiano e Jongo da Serrinha ganhando uma certa repercussão na mídia, mas há quem torça o nariz para tal situação, pois segundo o mestre Darcy do Jongo da Serrinha, foram necessárias algumas mudanças na performance do grupo para se adequar às apresentações para gente de fora da comunidade, mas o “produto” oferecido tem o carimbo da autenticidade, do verdadeiro jongo, do original… Está certo ou errado? Tal atitude seria aprovada ou não pelos pesquisadores?

Vemos também a música influenciada por aspectos regionais com viés contemporâneo como o Nação Zumbi, a cantora mexicana Lila Downs, o coletivo cigano Balkan Beat Box entre outros. Não sendo pertencentes diretos das comunidades, estes artistas seriam apropriadores indevidos de temas do imaginário popular? Estariam eles usurpando valores nacionais em prol de um enriquecimento pessoal?

Que mudanças ocorrem quando a cultura é institucionalizada como o Carnaval carioca e a Axé music? O jornalista TTCatalão nos aponta “a velha caricatura do “puro” e o “diluído”. E isso nos faz pensar no desespero dos puristas que temem que seu “objeto de estudo acadêmico” seja maculado. E quanto às mudanças fica aquela incômoda sensação da “macumba pra turista” na velha linha formol do folclore para o consumo ralo de exotismo do brilho fácil como purpurina desbotada. E para esquentar mais o debate, Luciana Mesquita entrevista a “Velha do Cerrado”, uma “personagem da cultura popular” que nos instiga a pensar a própria pesquisa, questionando as nossas perguntas. Será que não está na hora de revisar esses conceitos? Que tal deixar um pouco de lado os jargões acadêmicos para pensarmos todos juntos? O antropólogo Paulo Müller também contribuirá para pensarmos juntos essa questão.

O JAPÃO DA LIBERDADE – Vamos abordar aqui a presença musical das músicas dos povos migrantes no Brasil. Vemos uma série de grupos e associações de musica japonesa, italiana, árabe, húngara, portuguesa, alemã, espanhola promovendo suas formas musicais, mas não consigo vê-las mesclando-se aos elementos brasileiros. São guetos que mantém fragmentos de uma cultura de um determinado período, congeladas no tempo. O Japão da Liberdade é um Japão que não existe mais. Será que houve um “processo de fricção de musicalidades”[3]? Alice Satomi nos fala sobre a presença da música japonesa em São Paulo baseando-se nas suas pesquisas de mestrado e doutorado. Teremos também a colaboração da pesquisadora Ana Maria Kiefer que produziu o CD “Cancioneiro da Imigração”. Ela, talvez, possa nos apresentar elementos do que ela percebeu nas suas andanças por essa metrópole para esquentar a discussão.

SAMBA NO MUSEU – O samba, já de origem miscigenada, ganha o status de Patrimônio Cultural da Humanidade. O que significa isso? Carlos Sandroni, responsável pelo projeto junto ao IPHAN, nos contará como foi o processo de tombamento do Samba do Recôncavo na Bahia. Em que medida os acervos e registros podem não apenas preservar a tradição mas também dar um sentido histórico a ela?

WORLD MUSIC, ESSE FENÔMENO TÃO MAL COMPREENDIDO – A mídia brasileira insiste em afirmar que a World Music é um engodo, que ela existe para homogeneizar o local, globalizando tudo e todos. Essa é a primeira impressão, mas isso não é bem verdade. Vamos analisar alguns casos em que a World Music se apresentou como uma porta de entrada (com direito a tapete vermelho) para artistas do chamado Terceiro Mundo e como participar desse nicho significou uma melhora significativa na vida daqueles músicos. Paulo Müller irá discutir alguns aspectos referentes ao assunto e nós pretendemos colaborar com exemplos que temos tocado no Planeta Som, de “formas sadias” da World Music. Há, sim, gente de todo o mundo criando e recriando músicas interessantíssimas a cada dia. O movimento da “periferia do mundo” para o centro não pára. São mais de 300 festivais de World Music na Europa em um ano sempre com a presença maciça de cantores africanos, árabes e latinos. O que isso significa? Há problemas? Há estereótipos? Sim, com certeza, mas vamos tentar observar esse panorama com mais cuidado checando as informações e avaliando caso a caso. Paulo Müller nos propõe analisar o caso do grupo sul-africano Ladysmith Black Mambazo; o do músico malinês Ali Farka Touré, considerado o blueseiro de Mali, assim o polêmico caso do Deep Forest que se utilizou de gravações dos pigmeus africanos.

 

Quem quiser dar seus pitacos, please, entrem no site http://www.fluxosmusicais.com

 


[1] Herschman, Micael,. O Funk e o Hip-Hop invadem a cena. Ed. UFRJ, 2005

[2] Hobsbawn, E. Ranger, T. A invenção das tradições.Paz e Terra. 2006. São Paulo.

[3] Conceito trazido por Acácio Piedade, um dos nossos debatedores.