Arquivo de junho, 2011

Preparando Ikebanas…

Publicado: junho 13, 2011 em mawaca, Musica, pensar é só pensar

Sou fã da cultura japonesa. Admiro muito tudo o que eles concebem, desde os jardins japoneses, a música,os origamis, a arte da ikebana, a caligrafia e seus significados cheios de simbolismos, enfim, vejo que no Japão, mesmo as coisas mais simples tem significados profundos. Aprendo a cada dia algo novo da cultura japa.

Comecei a entender melhor o Japão e seus descendentes aqui no Brasil, quando ganhei de presente um koto, de uma fã do Mawaca. Com o instrumento nas mãos, fui atrás de quem me ensinasse a tocá-lo. Conheci Tamie Kitahara, uma professora de música maravilhosa, que tinha um prazer imenso em ensinar. E ela cantava tão bonito, tocava tão bem, era tão dedicada à música. Conhecer a Tamie foi um presente. Depois de anos, passeando pelas pentatônicas o Mawaca finalmente conseguirá gravar um show que é o resultado desse meu namoro com a cultura japonesa. Faremos no Teatro Paulo Autran do SESC Pinheiros (portanto em grande estilo, pois esse é um dos melhores teatros de São Paulo) o espetáculo Ikebanas Musicais (saiu como Sonoras, mas foi um equívoco semiótico causado pela correria do dia-a-dia).

Por que ikebana musical?  Ikebana é um arranjo floral que tem ritmo  e harmonia. Assim concebo os meus arranjos. A melodia é um fio  condutor, é a flor escolhida, e depois vêm os elementos que dão  sentido àquela melodia-flor. São três elementos que precisam ser  considerados na criação de uma ikebana:

céu (Shin),  o homem (Soe) e a terra (Tae ou Hikae).

Cito aqui um parágrafo de um site sobre Ikebanas que apresenta um pouco da filosofia dessa arte de dar vida às flores.

“A filosofia que envolve a Ikebana merece atenção especial, pois este é o ponto que a distingue dos arranjos ocidentais, onde procura-se valorizar o volume e a quantidade de flores, além de haver um descarte de flores tidas como “tortas” ou “imperfeitas”, fazendo parecer que a natureza as tivesse desenvolvido de forma errada. De acordo com a sensibilidade do praticante da Ikebana, a forma tortuosa da planta é vista como  movimento, até mesmo por que na natureza nada é estático. Então, valorizando o que a natureza oferece ao ser humano, o praticante da ikebana transforma esta harmonia do universo em obra de arte”  (http://www.blogjusto.com.br/2010/09/ikebana-a-arte-floral-japonesa/)

Então, criar ikebanas musicais é um exercício de austeridade e de liberdade ao mesmo tempo pois preciso pensar nesse eixo terra, céu e homem. Terra (tae) seria na minha concepção, a origem da música e seus significados. O Céu (shin), aonde você pode chegar com sua criação e o Homem, aquele que ouve sua música, o seu eu mesclado ao público. Assim imagino serem meus arranjos, principalmente os que faço com melodias japoneses. São lindas mas não são óbvias. Não são retas, são tortas. São sutis. São como flores de todas as cores.

Nesse espetáculo Ikebanas Musicais com o Mawaca apresentamos várias canções japonesas que se relacionam às estações do ano, outro dado que aprendi com a cultura japonesa, essa ligação bonita com a natureza, de um respeito profundo!

Cada estação tem seu tom, sua tonalidade, sua mobilidade, seu encanto, sua beleza. Até mesmo o inverno, aqui no Brasil, considerada uma estação menor, no Japão se comemora essa estação com alegria.

Vi ikebanas lindas sem flores, apenas galhos secos e folhagens que demonstram a beleza que essa estação nos propicia também.


O arranjo de Hotaru Koi de Ro Ogura é uma verdadeira ikebana musical. De uma delicadeza, um primor mesmo. O cânone inicial com pequenas dissonâncias cria a ilusão sonora do vagalume piscando na noite. É realmente uma sacação do arranjador. Ai vai o link de Hotaru Koi com o Mawaca cantando. http://www.youtube.com/watch?v=UQIBTKarRR8
O show Ikebanas Musicas com o Mawaca irá acontecer no SESC Pinheiros dias 18 e 19 de junho como parte da programação de uma mostra de filmes japoneses.

Além de Hotaru koi, muitas músicas bonitas como Imayo que mesclamos com Papai Curumiassu, Haru no umi, Soran Bushi, Kazoe Uta entre outras.

Um show bonito, delicado que contará com as participações especiais de Tamie Kitahara no koto, shamizen e na voz, Shen Ribeiro no sakuhachi e as irmãs do taiko Daniella e Deborah Shimada.

Segue link com as informações sobre esse show no SESC http://www.sescsp.org.br/sesc/programa_new/mostra_detalhe.cfm?programacao_id=195384

Conto com a colaboração constante de um amigo e profundo conhecedor da cultura japonesa, o Jo Takahashi, que por  muitos anos trabalha na Fundação Japão e agora abriu uma produtora para projetos que relacionam Brasil-Japão.

Jo sempre foi um incentivador do Mawaca, sempre nos dando apoios importantes. Sem ele, talvez nossa relação com a comunidade japonesa não teria se consolidado.

Além do Jo, temos vários colaboradores que estão nesse projeto Ikebanas Musicais, como  a jovem figurinista Jessica Vidal que está fazendo  quimonos modernos muito coloridos que ficarão lindos com os cenários virtuais criados pela artista plástica Erica Mizutani,  projetados e reconfigurados por Ricardo Botini. 

O espetáculo Ikebanas Musicais será gravado e transformado em DVD a ser lançado até o final do ano, mostrando assim a nossa relação afetiva com a comunidade japonesa que se instalou no Brasil há mais de 100 anos. São Paulo multicultural a toda prova!

This is Mawaca!

Segue roteiro do show que está no Jojoscope

http://docultural.com.br/blog/2011/06/mawaca-apresenta-ikebanas-musicais-2/

 


Estou aqui prostrada, cansada, com pilhas de coisas para fazer, artigos para escrever, trabalhos de alunos para corrigir, produção para fazer, propostas de novos projetos….e criar? quando terei tempo livre para criar, sem pressão, na boa? Será que essa é grande utopia do século, ter tempo para criar? na realidade, ter tempo para nós mesmos!

Lendo hoje uma entrevista da Martha Argerich, ela diz que gostaria de tocar menos para poder ter mais tempo para ela.  Até mesmo uma pianista do porte dela se queixa da loucura que é essa vida corrida, sem tempo para os pequenos prazeres da vida.  O público vê o artista como um privilegiado, de fato, somos, mas nos cansamos, quebramos nossas almas, nos dedicamos tanto que às vezes, não nos sobra tempo para mais nada. E isso pesa, como pesa!

Não temos vida bandida como Lobão fala na sua canção, mas vida corrida! Vida corridaaaaaaaa!!!!!!!!!!!