Arquivo de fevereiro, 2007

sobre a world music

Publicado: fevereiro 4, 2007 em Musica, textos

A World Music – essa desconhecida e rechaçada tendência

Magda Pucci 15-03-2002Revisão abril 2006 Do que você gosta? De jazz, de pop, de rock, punk, de axé, de pagode? Qual o seu estilo musical predileto? Essa pergunta está sempre por ai nos atazanando, como se a gente definindo o estilo musical, define a tribo a que pertencemos, não é mesmo? Há um gênero – que inclui diferentes tendências – denominado World Music e que aqui no Brasil ainda engatinha. Dentre os diversos estilos e gêneros musicais da atualidade, a world music tem se mostrado a mais promissora tendência em todos os sentidos, tanto na área do conhecimento humano como no mercado fonográfico, isto é, na industria cultural. 

O interesse em torno da música étnica mundial surgiu no final da década de 60 e inicio da de 70 e veio crescendo vagarosamente até culminar com a atual tendência do multiculturalismo que busca uma aproximação com as culturas “tribais” e para as manifestações “étnicas” (ou seria “periféricas”?) do Terceiro Mundo. A música africana e oriental passou a ser objeto de interesse de muitos pesquisadores e músicos. Hoje, são importantes referências porque mudaram a forma de se pensar a musica no Ocidente.  Tanto a música contemporânea, erudita ou popular se transformou pelo contato com essas tradições que utilizam um “logos” musical diferente. Antes, entre as décadas de 30 e 50, essa “música diferente” era pesquisada por antropólogos e/ou etnomusicólogos[1] que passavam a viver em lugares isolados como algumas ilhas do Pacífico, aldeias africanas, ou no meio dos esquimós, em geral, lugares que viraram colônias de alguma grande potência. Estes conviviam meses com esses povos a fim de conhecer de perto seus costumes, mitos e tradições. A música vinha no bojo desse item “tradição”, e normalmente era encarada como complemento dos ritos e festas. Algumas décadas depois, surgiram os “etnomusicólogos informais”, na realidade, músicos, considerados uns “excêntricos”, que se encantavam com os sons totalmente diferentes e inusitados para os ouvidos ocidentais. Estes caras abriram o caminho para uma série de produtores musicais que enxergaram ali um grande filão a ser explorado. Esse foi, basicamente o inicio da World Music. A exploração comercial dessa musica “exótica”, chamada inicialmente de “música dos povos esquecidos” (termo totalmente refutado hoje pelos etnomusicólogos de plantão)Esse “movimento” abriu, por assim dizer, as fronteiras da música criando novos caminhos, que hoje já são consideradas tendências estabelecidas tais como o movimento Afro-Pop desencadeado pelo Black is Beautiful e que popularizou a cantora sul-africana Miriam Makeba e Fela Kuti. Para situar melhor, vamos citar alguns nomes que em diferentes épocas buscaram beber na fonte da “música étnica”.Brian Eno, Jon Hassel e Bill Laswell (que juntos realizaram o álbum In the bush of ghosts); David Fanshawe (inglês que gravou em campo cantos africanos que eram tocados junto com uma orquestra e uma banda de rock); Riuchi Sakamoto (gravou e recriou temas de Okinawa quando a ilha era ainda desprezada pelos japoneses); Steve Reich e Terry Riley (que foram amplamente influenciados pelas estruturas da música clássica indiana e pelos gamelões javaneses); o trompetista Don Cherry; Bill Laswel que produziu vários álbuns com musicos marroquinos; Brian Jones e Keith Richards dos Stones que se encantou com os trances de Gnawa de Marrakesh, assim como Robert Plenty e Jimmy Page, Joe Zawinul; Sun Ra; a famosa parceria entre o beatle George Harrison e o sitarista indiano Ravi Shankar; até chegar no boom da World Music que foi o CD Mustt Mustt produzido por  Simon Emerson com o cantor sufi-paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan num álbum bancado pela Real World de Peter Gabriel. Aliás, Peter Gabriel e David Byrne criaram seus próprios selos que tinham como objetivo a difusão de artistas dos mundos esquecidos, em especial africanos e asiáticos. Ai o mercado realmente acreditou que a World Music seria uma bela alternativa comercial. A partir daí, outras vertentes começaram a surgir, como por exemplo, o produtor francês, Hughes de Courson – cujos projetos criam misturas inusitadas como temas de Bach e música africana, Mozart e musica árabe; Goran Bregovich que explorou o som característico dos ciganos com mix de mulheres búlgaras, os metais das bandas de casamento e funeral do Leste Europeu fincadas numa leitura semi-pop; e tantos outros. Como podemos observar, esses artistas citados são provenientes mais diversas tendências musicais e entenderam que essa musica estranha poderia ampliar o universo sonoro musical deles de alguma forma. Cada um à sua maneira, reinventou, recriou, reviveu, reorganizou, refez, enfim, “mexeu” com alguns dos milhares de arquétipos musicais de outras eras e de outros povos mesclando à sua visão de mundo. Os resultados, alguns de gosto duvidoso, e outros de excelente boa qualidade.  Na onda das fusões, surgiram no mercado, os CDs do produtor Hughes de Courson onde ele mistura Bach com corais africanos, Vivaldi com melodias irlandesas e Mozart com música egípcia. Loucura? Yoyo Ma, cellista do mundo erudito criou um projeto onde reuniu músicos dos paises da Rota da Seda. David Byrne, além de ter tirado Tom Zé do ostracismo, criou a série Afropea pelo seu selo Luaka Bop para divulgar artistas portugueses e africanos desvendando uma teia de intersecções musicais interessantíssimas. Mais conhecida foi a parceria do Paul Simon com o grupo vocal sul-africano Ladysmith Black Mambazo. Quem poderia imaginar que o mbube – estilo vocal sul-africano – se tornaria tão conhecido no mundo ocidental e que fosse virar tema da trilha do filme infantil ‘The Lion King”? (The Lions Sleeps Tonight é o nome em inglês de uma das canções que fazem parte do repertório tradicional sul-africano e que nas vozes do Black Mambazo ganhou o mundo. Hoje há várias versões desse tema, uma delas feita pelo grupo A´zapella, cuja letra contrapõe com a idéia original e diz: “No more lions!” talvez cansados de serem relacionados com esse tema). Depois disso, Paul Simon se debruça sobre os sons do Brasil e grava com um grupo de meninos tocando tambores do axé baiano.Atualmente, incontáveis pequenos e médios selos – alguns “braços” de grandes gravadoras – vêm se firmando e assumindo uma parcela razoável do mercado fonográfico mundial. São esses selos que têm explorado as diferentes ramificações da World Music que passam desde o registro da música tradicional gravada in loco – (Ellipsis Arts, Harmonia Mundi, Ethnic, World Circuit etc.), até as fusões da música étnica com o pop e com o rock, (Rykodisk, Realworld, Stern) assim como as fusões com a musica clássica (Jaro Music) e com a musica eletrônica (muitos!) – onde o uso de samples ‘étnicos’ virou mania total você talvez se lembre do canto dos pigmeus sobre as bases do Deep Forest (uma das primeiras tentativas nesse sentido).  

Sem falar nos grupos que misturam música de um lugar e de outro como o Radio Tarifa, Ojos de Brujo, Afro-Celt System entre outros. E gente que transcende a música tradicional e cria novas composições como a indiana Sheila Chandra, o alaudista Rabih Abou Khalil; o palestino Yair Dalal, a húngara Marta Sebéstyen, Yungchen Lhamo entre tantos outros. A world music ganha seu espaço e não faltam termos para definir os vários estilos que surgem.   A diversidade de tendências propiciou um campo fértil para a produção de CDs de artistas que antes disso não viam perspectiva alguma de se colocar musicalmente fora do seu país de origem. Hoje é comum ver músicos do Nilo, do Leste Europeu, da Finlândia com agendas lotadas por mais de um ano em festivais de música do mundo todo. No início desse processo, a porta de entrada era os festivais de jazz, mas hoje, há uma profusão de festivais de World Music, principalmente na Europa que congrega artistas de todos os estilos, alguns com tendência mais pop, outros mais tradicionais. 

Os sons étnicos também encantaram pop stars como Madonna e Björk. Madonna lançou um CD com mantras indianos depois de conhecer os princípios da Yoga e do guru Deepak Chopra. Björk, que além de se apresentar com um grupo de esquimós, participou de um acústico na MTV onde ela era acompanhada por uma orquestra de gamelões de Java, tablas indianas harpa celta além de instrumentos vintage. E quem era o tablista de Bjork nesse show? Talvin Singh, o indiano que decolou na cena do asian underground londrino. Hoje produtor requisitadíssimo, a musica de Singh se diferencia dos outros DJs do mundo porque usa as células rítmicas tradicionais das tablas indianas para fazer suas bases eletrônicas. Outro caso interessante é o do argelino Cheb Mami que ganhou notoriedade quando Sting fez uma participação especial no seu mais recente CD Roses. O mundo pop está a beber das fontes musicais étnicas, como se fossem tônicos revitalizantes.  Felizmente, nota-se uma agitação intensa em torno de se criar espaços onde essas múltiplas tendências possam ser integrar. Até o momento, são as rádios que mais têm aberto espaço para a world music, como a rede alemã Multikulti SBF4 e a Radio France Internacional. A BBC de Londres já estabeleceu, há alguns anos, um prêmio respeitadíssimo na área de World  Music. A rádio, antes voltada quase que exclusivamente para a musica erudita, abriu espaço para a World Music em programas muito de alto nível com grandes audiências. Revistas como Songlines, FolkRoots, Rhythm Magazine, Mondomix, o jornal Batonga! entre outras vêm mostrando o que acontece nesse universo musical fascinante. Nos Estados Unidos, há a WordlinkTV canal especializado em video-clips de artistas da world music. São mais de 300 festivais ligados a World Music só na Europa que, sem sombra de dúvida, devem estar ampliando o raio de ação desses artistas que não param de aparecer.  

No Brasil, a coisa ainda anda lentamente. Muitos artistas da MPB reclamam do termo World Music, se sentem descriminados por causa do rótulo a eles destinado. Mas devemos nos lembrar que esses mesmo músicos devem à existência ou a continuidade de suas carreiras graças a esse mercado da World Music, que os recebe muitíssimo bem lá fora e ainda os coloca sempre em posição quase sempre de destaque nos rankings todos.  O termo World Music foi criado por produtores, na década de 70, com o intuito de “separar” a música de língua anglo-saxônica (isto é: o pop americano e o rock inglês) que se fazia na época, dessa outra música que não só falava outras línguas (latinas, africanas etc. ) como tocavam outros instrumentos, dançavam outros ritmos, usavam outras escalas musicais. Imagine que naquele momento, ouvir o som de um instrumento aborígine australiano ou o canto pigmeu africano em casa, era algo totalmente fora do comum e excitava a imaginação musical de muita gente Evidente que a intenção se resvala numa atitude colonialista (que separava os “civilizados” (eles) dos “primitivos” (nós, do Terceiro Mundo criativo). A necessidade urgente, naquele momento, era estabelecer um lugar nas prateleiras para essa música, digamos, exótica, “diferente” do que se fazia em outros lugares. Se revestido de preconceito ou não, o fato é que o termo adveio de uma necessidade mercadológica e prática: onde colocar essa música que não é rock, nem pop, nem jazz?  O resultado disso foi uma ampliação de um espaço quase inexistente para uma música que nunca esteve presente em loja alguma seja na Europa ou nos Estados Unidos. Essa empreitada foi de tal forma bem sucedida, que criou um mercado suficientemente forte para estimular a criação de um Grammy Latino para tirar do páreo), artistas da  World Music que estavam “roubando” o espaço de estrelas do pop americano. Pior que o preconceito, só é a reserva de mercado… 

Quem conheceria os cantos afro-peruanos coletados por Susana Baca se não fosse David Byrne em reconhecê-la com tal? (que diz odiar a World Music, mas bebe direto nessa fonte). Como poderíamos conhecer a música cabo-verdiana, se Cesárea Évora não tivesse o reconhecimento e sucesso que teve na França, justamente para fomentar esse mercado de World Music? Seriamos mais pobres, culturalmente falando, se não tivéssemos conhecido o grande talento do cantor paquistanês sufi Nusrat Fateh Ali Khan, que gravou mais de 60 CDs, boa parte deles para alimentar o tal mercado da World Music na França. Como teríamos esperança em unir palestinos e judeus se não fosse Yair Dalal tocando com músicos dos dois lados em projetos pelo mundo todo? Jamais conheceríamos os sons estranhos e maravilhosos dos cantos de Tuva se não fosse a curiosidade cultural de produtores de um selo americano que nasceu no bojo da World Music. O que seriam daqueles fantásticos músicos cubanos se Ry Cooder não tivesse se prontificado a lançá-los novamente para o mundo depois de tanto tempo de ostracismo? Uns poderiam dizer que isso é oportunismo. Outros diriam que as fusões poderiam afetar a pureza dessa música original, autóctone –  o que é uma grande bobagem – tendo em vista que a música tem essa característica de ser um ser vivo cambiante, em constante mutação sonora e que não precisa de passaporte para ser boa ou ruim. As fronteiras estão na mente de quem quer identificar origens e congelá-las em cubículos inúteis.  A World Music tem, sim, contribuído de forma magnífica para que possamos, ao menos, conhecer o que tem de bom (e de ruim também) do outro lado do mundo. Saber o que o vizinho da América Latina está tocando; quem está produzindo música lá nos confins da Finlândia e até mesmo se dar conta de que existe um pop feito pelos esquimós no Canadá. Conhecer o outro – como dizia Lévi-Strauss – nos faz conhecer a nós mesmos. Por mais banal que essa prerrogativa possa parecer, a música é a arte, que menos fronteiras tem. Ela tem o poder de nos fornecer um “passaporte” virtual sem necessidades de vistos ou alfândegas.   


[1] Alan Merriam, Anthony Seeger,  John Blacking, Bruno Netl e aqui no Brasil, Mário de Andrade, Tiago de Oliveira Pinto e Rafael Menezes entre muitos outros.

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