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OPERAÇÃO INTRAMUROS – Proponho no site Fluxos Musicais discutirmos temas que são normalmente escopo dos acadêmicos, antropologos, etnomusicologos, historiadores, semioticistas etc. Mas nesse espaço (www.fluxosmusicais.com) gostaria de discutir o papel da Etnomusicologia nos dias de hoje. Vejo quase sempre um preconceito dos pesquisadores com as formas atuais da música, porque são consideradas diluídas, poluídas de intervenções externas.Ramón Pelinski, etnomusicólogo argentino, nos propõe um olhar revelador sobre a pesquisa em música fazendo uma reavaliação de sua trajetória e dos pressupostos traçados pela academia. E certo momento, chega até a propor que a disciplina seja extinta! Vejo uma falta de ligação entre a realidade e o que se pesquisa, hiatos enormes que impedem que o que se estuda dentro das universidades venha a campo, reverbere na sociedade. Eu, sendo musicista ligada à pratica musical, mas também pesquisadora, observo as dificudades de acesso às pesquisas. Se não entrasse no circuito academico, eu estaria, hoje,,por fora de muita coisa legal que anda acontecendo. Mas por que, os intelectuais, de maneira geral, ficam tão alijados da propria realidade? São poucos aqueles que conseguem um diálogo com pessoas comuns da sociedade e que façam de seus estudos algo que possa ser compartilhado por todos, democraticamente. Vejo academicos se esbofeteando por verbas minguadas, por projetos que não saem do papel, de excelentes idéias que morrem antes de irem para prática, porque não conseguem dialogar entre seus pares, porque um da panela x e outra do grupo y… Isso denota uma certa falta de maturidade, segunrança no proprio taco ou excesso de arrogancia? Uma hora isso teria que acabar, não? Afinal de contas, boa parte desses pesquisadores estão vinculados às universidades públicas, e por isso, acho que temos o direito, como cidadãos, de requisitar que esses se reportem ao mundo do que andam fazendo. Então, com esse site, proponho um desafio de levar essas pesquisas, que ficam encerradas nos circulos acadêmicos, para o mundo real. Que elas sejam mais divulgadas e amplamente discutidas pela sociedade. Vamos implodir os muros da academia?

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site fluxos musicais

Publicado: fevereiro 8, 2008 em Musica, planeta som, textos

Nesses meses que se passaram, fiquei um bom tempo lendo sobre as questões ligadas ao site Fluxos Musicais, onde sou editora. A idéia é debater temas que ficam meio de lado, nas discussões sobre música. Embora a frequencia seja meio esparsa, os comentarios tem sido bem interessantes e acho que se conseguisse divulgar melhor, ele poderia se transformar num site de discussões mais atuais sobre a música. Portanto, fica aqui o meu convite para quem se interessa por temas como:

TROCANDO OS EIXOS – Os binômios centro-periferia, culto-popular, cultural-comercial, underground-stablishment, streetcorporativo são antigos mas continuam a operar nos dias de hoje muito mais amplificados, evidentemente. Assim como o hip hop invadiu eventos culturais voltados para a o público de classe média[1], o funk carioca, cuja expressão foi fixada em territórios do morro, agora, é tocado nas casas noturnas das capitais do país para entretenimento de uma jovem elite. Até que ponto a periferia está fora e o centro está dentro? As fronteiras entre centro e periferia se tornam cada vez mais tênues.

PURO OU DILUÍDO? INVENTANDO TRADIÇÕES – Hobsbawn nos apresenta um texto interessantíssimo sobre o kilt escocês que todos nos acreditamos que é a mais pura tradição daquele país, verdadeiro símbolo nacional junto à gaita de foles. No entanto, nas suas pesquisas, ele descobriu que aquela saia de lã xadrez é moderna; a vestimenta foi inventada, no final do séc. XVIII e início do XIX, para substituir a saia de couro, considerada “indício de barbarismo, o distintivo de montanheses velhacos, indolentes e chantagistas, que representavam para a Escócia civilizada e histórica mais um inconveniente do que uma ameaça[2]”. Além disso, os escoceses, tentando se livrar da influência irlandesa, trataram da elaboração artificial de novas tradições das Terras Altas que foram apresentadas como legítimas, originais e muito antigas. Até mesmo uma literatura de caráter escocês foi forjada por Sir Macpherson em cumplicidade com o ministro James Macpherson que forjaram documentos para fundamentar uma nova história do país! Ariano Suassuna ficaria até suave diante de tal malogro!

Com a difusão da cultura popular nos editais de cultura, observamos Coco Raízes de Arcoverde, Mestre Salustiano e Jongo da Serrinha ganhando uma certa repercussão na mídia, mas há quem torça o nariz para tal situação, pois segundo o mestre Darcy do Jongo da Serrinha, foram necessárias algumas mudanças na performance do grupo para se adequar às apresentações para gente de fora da comunidade, mas o “produto” oferecido tem o carimbo da autenticidade, do verdadeiro jongo, do original… Está certo ou errado? Tal atitude seria aprovada ou não pelos pesquisadores?

Vemos também a música influenciada por aspectos regionais com viés contemporâneo como o Nação Zumbi, a cantora mexicana Lila Downs, o coletivo cigano Balkan Beat Box entre outros. Não sendo pertencentes diretos das comunidades, estes artistas seriam apropriadores indevidos de temas do imaginário popular? Estariam eles usurpando valores nacionais em prol de um enriquecimento pessoal?

Que mudanças ocorrem quando a cultura é institucionalizada como o Carnaval carioca e a Axé music? O jornalista TTCatalão nos aponta “a velha caricatura do “puro” e o “diluído”. E isso nos faz pensar no desespero dos puristas que temem que seu “objeto de estudo acadêmico” seja maculado. E quanto às mudanças fica aquela incômoda sensação da “macumba pra turista” na velha linha formol do folclore para o consumo ralo de exotismo do brilho fácil como purpurina desbotada. E para esquentar mais o debate, Luciana Mesquita entrevista a “Velha do Cerrado”, uma “personagem da cultura popular” que nos instiga a pensar a própria pesquisa, questionando as nossas perguntas. Será que não está na hora de revisar esses conceitos? Que tal deixar um pouco de lado os jargões acadêmicos para pensarmos todos juntos? O antropólogo Paulo Müller também contribuirá para pensarmos juntos essa questão.

O JAPÃO DA LIBERDADE – Vamos abordar aqui a presença musical das músicas dos povos migrantes no Brasil. Vemos uma série de grupos e associações de musica japonesa, italiana, árabe, húngara, portuguesa, alemã, espanhola promovendo suas formas musicais, mas não consigo vê-las mesclando-se aos elementos brasileiros. São guetos que mantém fragmentos de uma cultura de um determinado período, congeladas no tempo. O Japão da Liberdade é um Japão que não existe mais. Será que houve um “processo de fricção de musicalidades”[3]? Alice Satomi nos fala sobre a presença da música japonesa em São Paulo baseando-se nas suas pesquisas de mestrado e doutorado. Teremos também a colaboração da pesquisadora Ana Maria Kiefer que produziu o CD “Cancioneiro da Imigração”. Ela, talvez, possa nos apresentar elementos do que ela percebeu nas suas andanças por essa metrópole para esquentar a discussão.

SAMBA NO MUSEU – O samba, já de origem miscigenada, ganha o status de Patrimônio Cultural da Humanidade. O que significa isso? Carlos Sandroni, responsável pelo projeto junto ao IPHAN, nos contará como foi o processo de tombamento do Samba do Recôncavo na Bahia. Em que medida os acervos e registros podem não apenas preservar a tradição mas também dar um sentido histórico a ela?

WORLD MUSIC, ESSE FENÔMENO TÃO MAL COMPREENDIDO – A mídia brasileira insiste em afirmar que a World Music é um engodo, que ela existe para homogeneizar o local, globalizando tudo e todos. Essa é a primeira impressão, mas isso não é bem verdade. Vamos analisar alguns casos em que a World Music se apresentou como uma porta de entrada (com direito a tapete vermelho) para artistas do chamado Terceiro Mundo e como participar desse nicho significou uma melhora significativa na vida daqueles músicos. Paulo Müller irá discutir alguns aspectos referentes ao assunto e nós pretendemos colaborar com exemplos que temos tocado no Planeta Som, de “formas sadias” da World Music. Há, sim, gente de todo o mundo criando e recriando músicas interessantíssimas a cada dia. O movimento da “periferia do mundo” para o centro não pára. São mais de 300 festivais de World Music na Europa em um ano sempre com a presença maciça de cantores africanos, árabes e latinos. O que isso significa? Há problemas? Há estereótipos? Sim, com certeza, mas vamos tentar observar esse panorama com mais cuidado checando as informações e avaliando caso a caso. Paulo Müller nos propõe analisar o caso do grupo sul-africano Ladysmith Black Mambazo; o do músico malinês Ali Farka Touré, considerado o blueseiro de Mali, assim o polêmico caso do Deep Forest que se utilizou de gravações dos pigmeus africanos.

 

Quem quiser dar seus pitacos, please, entrem no site http://www.fluxosmusicais.com

 


[1] Herschman, Micael,. O Funk e o Hip-Hop invadem a cena. Ed. UFRJ, 2005

[2] Hobsbawn, E. Ranger, T. A invenção das tradições.Paz e Terra. 2006. São Paulo.

[3] Conceito trazido por Acácio Piedade, um dos nossos debatedores.

sobre a world music

Publicado: fevereiro 4, 2007 em Musica, textos

A World Music – essa desconhecida e rechaçada tendência

Magda Pucci 15-03-2002Revisão abril 2006 Do que você gosta? De jazz, de pop, de rock, punk, de axé, de pagode? Qual o seu estilo musical predileto? Essa pergunta está sempre por ai nos atazanando, como se a gente definindo o estilo musical, define a tribo a que pertencemos, não é mesmo? Há um gênero – que inclui diferentes tendências – denominado World Music e que aqui no Brasil ainda engatinha. Dentre os diversos estilos e gêneros musicais da atualidade, a world music tem se mostrado a mais promissora tendência em todos os sentidos, tanto na área do conhecimento humano como no mercado fonográfico, isto é, na industria cultural. 

O interesse em torno da música étnica mundial surgiu no final da década de 60 e inicio da de 70 e veio crescendo vagarosamente até culminar com a atual tendência do multiculturalismo que busca uma aproximação com as culturas “tribais” e para as manifestações “étnicas” (ou seria “periféricas”?) do Terceiro Mundo. A música africana e oriental passou a ser objeto de interesse de muitos pesquisadores e músicos. Hoje, são importantes referências porque mudaram a forma de se pensar a musica no Ocidente.  Tanto a música contemporânea, erudita ou popular se transformou pelo contato com essas tradições que utilizam um “logos” musical diferente. Antes, entre as décadas de 30 e 50, essa “música diferente” era pesquisada por antropólogos e/ou etnomusicólogos[1] que passavam a viver em lugares isolados como algumas ilhas do Pacífico, aldeias africanas, ou no meio dos esquimós, em geral, lugares que viraram colônias de alguma grande potência. Estes conviviam meses com esses povos a fim de conhecer de perto seus costumes, mitos e tradições. A música vinha no bojo desse item “tradição”, e normalmente era encarada como complemento dos ritos e festas. Algumas décadas depois, surgiram os “etnomusicólogos informais”, na realidade, músicos, considerados uns “excêntricos”, que se encantavam com os sons totalmente diferentes e inusitados para os ouvidos ocidentais. Estes caras abriram o caminho para uma série de produtores musicais que enxergaram ali um grande filão a ser explorado. Esse foi, basicamente o inicio da World Music. A exploração comercial dessa musica “exótica”, chamada inicialmente de “música dos povos esquecidos” (termo totalmente refutado hoje pelos etnomusicólogos de plantão)Esse “movimento” abriu, por assim dizer, as fronteiras da música criando novos caminhos, que hoje já são consideradas tendências estabelecidas tais como o movimento Afro-Pop desencadeado pelo Black is Beautiful e que popularizou a cantora sul-africana Miriam Makeba e Fela Kuti. Para situar melhor, vamos citar alguns nomes que em diferentes épocas buscaram beber na fonte da “música étnica”.Brian Eno, Jon Hassel e Bill Laswell (que juntos realizaram o álbum In the bush of ghosts); David Fanshawe (inglês que gravou em campo cantos africanos que eram tocados junto com uma orquestra e uma banda de rock); Riuchi Sakamoto (gravou e recriou temas de Okinawa quando a ilha era ainda desprezada pelos japoneses); Steve Reich e Terry Riley (que foram amplamente influenciados pelas estruturas da música clássica indiana e pelos gamelões javaneses); o trompetista Don Cherry; Bill Laswel que produziu vários álbuns com musicos marroquinos; Brian Jones e Keith Richards dos Stones que se encantou com os trances de Gnawa de Marrakesh, assim como Robert Plenty e Jimmy Page, Joe Zawinul; Sun Ra; a famosa parceria entre o beatle George Harrison e o sitarista indiano Ravi Shankar; até chegar no boom da World Music que foi o CD Mustt Mustt produzido por  Simon Emerson com o cantor sufi-paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan num álbum bancado pela Real World de Peter Gabriel. Aliás, Peter Gabriel e David Byrne criaram seus próprios selos que tinham como objetivo a difusão de artistas dos mundos esquecidos, em especial africanos e asiáticos. Ai o mercado realmente acreditou que a World Music seria uma bela alternativa comercial. A partir daí, outras vertentes começaram a surgir, como por exemplo, o produtor francês, Hughes de Courson – cujos projetos criam misturas inusitadas como temas de Bach e música africana, Mozart e musica árabe; Goran Bregovich que explorou o som característico dos ciganos com mix de mulheres búlgaras, os metais das bandas de casamento e funeral do Leste Europeu fincadas numa leitura semi-pop; e tantos outros. Como podemos observar, esses artistas citados são provenientes mais diversas tendências musicais e entenderam que essa musica estranha poderia ampliar o universo sonoro musical deles de alguma forma. Cada um à sua maneira, reinventou, recriou, reviveu, reorganizou, refez, enfim, “mexeu” com alguns dos milhares de arquétipos musicais de outras eras e de outros povos mesclando à sua visão de mundo. Os resultados, alguns de gosto duvidoso, e outros de excelente boa qualidade.  Na onda das fusões, surgiram no mercado, os CDs do produtor Hughes de Courson onde ele mistura Bach com corais africanos, Vivaldi com melodias irlandesas e Mozart com música egípcia. Loucura? Yoyo Ma, cellista do mundo erudito criou um projeto onde reuniu músicos dos paises da Rota da Seda. David Byrne, além de ter tirado Tom Zé do ostracismo, criou a série Afropea pelo seu selo Luaka Bop para divulgar artistas portugueses e africanos desvendando uma teia de intersecções musicais interessantíssimas. Mais conhecida foi a parceria do Paul Simon com o grupo vocal sul-africano Ladysmith Black Mambazo. Quem poderia imaginar que o mbube – estilo vocal sul-africano – se tornaria tão conhecido no mundo ocidental e que fosse virar tema da trilha do filme infantil ‘The Lion King”? (The Lions Sleeps Tonight é o nome em inglês de uma das canções que fazem parte do repertório tradicional sul-africano e que nas vozes do Black Mambazo ganhou o mundo. Hoje há várias versões desse tema, uma delas feita pelo grupo A´zapella, cuja letra contrapõe com a idéia original e diz: “No more lions!” talvez cansados de serem relacionados com esse tema). Depois disso, Paul Simon se debruça sobre os sons do Brasil e grava com um grupo de meninos tocando tambores do axé baiano.Atualmente, incontáveis pequenos e médios selos – alguns “braços” de grandes gravadoras – vêm se firmando e assumindo uma parcela razoável do mercado fonográfico mundial. São esses selos que têm explorado as diferentes ramificações da World Music que passam desde o registro da música tradicional gravada in loco – (Ellipsis Arts, Harmonia Mundi, Ethnic, World Circuit etc.), até as fusões da música étnica com o pop e com o rock, (Rykodisk, Realworld, Stern) assim como as fusões com a musica clássica (Jaro Music) e com a musica eletrônica (muitos!) – onde o uso de samples ‘étnicos’ virou mania total você talvez se lembre do canto dos pigmeus sobre as bases do Deep Forest (uma das primeiras tentativas nesse sentido).  

Sem falar nos grupos que misturam música de um lugar e de outro como o Radio Tarifa, Ojos de Brujo, Afro-Celt System entre outros. E gente que transcende a música tradicional e cria novas composições como a indiana Sheila Chandra, o alaudista Rabih Abou Khalil; o palestino Yair Dalal, a húngara Marta Sebéstyen, Yungchen Lhamo entre tantos outros. A world music ganha seu espaço e não faltam termos para definir os vários estilos que surgem.   A diversidade de tendências propiciou um campo fértil para a produção de CDs de artistas que antes disso não viam perspectiva alguma de se colocar musicalmente fora do seu país de origem. Hoje é comum ver músicos do Nilo, do Leste Europeu, da Finlândia com agendas lotadas por mais de um ano em festivais de música do mundo todo. No início desse processo, a porta de entrada era os festivais de jazz, mas hoje, há uma profusão de festivais de World Music, principalmente na Europa que congrega artistas de todos os estilos, alguns com tendência mais pop, outros mais tradicionais. 

Os sons étnicos também encantaram pop stars como Madonna e Björk. Madonna lançou um CD com mantras indianos depois de conhecer os princípios da Yoga e do guru Deepak Chopra. Björk, que além de se apresentar com um grupo de esquimós, participou de um acústico na MTV onde ela era acompanhada por uma orquestra de gamelões de Java, tablas indianas harpa celta além de instrumentos vintage. E quem era o tablista de Bjork nesse show? Talvin Singh, o indiano que decolou na cena do asian underground londrino. Hoje produtor requisitadíssimo, a musica de Singh se diferencia dos outros DJs do mundo porque usa as células rítmicas tradicionais das tablas indianas para fazer suas bases eletrônicas. Outro caso interessante é o do argelino Cheb Mami que ganhou notoriedade quando Sting fez uma participação especial no seu mais recente CD Roses. O mundo pop está a beber das fontes musicais étnicas, como se fossem tônicos revitalizantes.  Felizmente, nota-se uma agitação intensa em torno de se criar espaços onde essas múltiplas tendências possam ser integrar. Até o momento, são as rádios que mais têm aberto espaço para a world music, como a rede alemã Multikulti SBF4 e a Radio France Internacional. A BBC de Londres já estabeleceu, há alguns anos, um prêmio respeitadíssimo na área de World  Music. A rádio, antes voltada quase que exclusivamente para a musica erudita, abriu espaço para a World Music em programas muito de alto nível com grandes audiências. Revistas como Songlines, FolkRoots, Rhythm Magazine, Mondomix, o jornal Batonga! entre outras vêm mostrando o que acontece nesse universo musical fascinante. Nos Estados Unidos, há a WordlinkTV canal especializado em video-clips de artistas da world music. São mais de 300 festivais ligados a World Music só na Europa que, sem sombra de dúvida, devem estar ampliando o raio de ação desses artistas que não param de aparecer.  

No Brasil, a coisa ainda anda lentamente. Muitos artistas da MPB reclamam do termo World Music, se sentem descriminados por causa do rótulo a eles destinado. Mas devemos nos lembrar que esses mesmo músicos devem à existência ou a continuidade de suas carreiras graças a esse mercado da World Music, que os recebe muitíssimo bem lá fora e ainda os coloca sempre em posição quase sempre de destaque nos rankings todos.  O termo World Music foi criado por produtores, na década de 70, com o intuito de “separar” a música de língua anglo-saxônica (isto é: o pop americano e o rock inglês) que se fazia na época, dessa outra música que não só falava outras línguas (latinas, africanas etc. ) como tocavam outros instrumentos, dançavam outros ritmos, usavam outras escalas musicais. Imagine que naquele momento, ouvir o som de um instrumento aborígine australiano ou o canto pigmeu africano em casa, era algo totalmente fora do comum e excitava a imaginação musical de muita gente Evidente que a intenção se resvala numa atitude colonialista (que separava os “civilizados” (eles) dos “primitivos” (nós, do Terceiro Mundo criativo). A necessidade urgente, naquele momento, era estabelecer um lugar nas prateleiras para essa música, digamos, exótica, “diferente” do que se fazia em outros lugares. Se revestido de preconceito ou não, o fato é que o termo adveio de uma necessidade mercadológica e prática: onde colocar essa música que não é rock, nem pop, nem jazz?  O resultado disso foi uma ampliação de um espaço quase inexistente para uma música que nunca esteve presente em loja alguma seja na Europa ou nos Estados Unidos. Essa empreitada foi de tal forma bem sucedida, que criou um mercado suficientemente forte para estimular a criação de um Grammy Latino para tirar do páreo), artistas da  World Music que estavam “roubando” o espaço de estrelas do pop americano. Pior que o preconceito, só é a reserva de mercado… 

Quem conheceria os cantos afro-peruanos coletados por Susana Baca se não fosse David Byrne em reconhecê-la com tal? (que diz odiar a World Music, mas bebe direto nessa fonte). Como poderíamos conhecer a música cabo-verdiana, se Cesárea Évora não tivesse o reconhecimento e sucesso que teve na França, justamente para fomentar esse mercado de World Music? Seriamos mais pobres, culturalmente falando, se não tivéssemos conhecido o grande talento do cantor paquistanês sufi Nusrat Fateh Ali Khan, que gravou mais de 60 CDs, boa parte deles para alimentar o tal mercado da World Music na França. Como teríamos esperança em unir palestinos e judeus se não fosse Yair Dalal tocando com músicos dos dois lados em projetos pelo mundo todo? Jamais conheceríamos os sons estranhos e maravilhosos dos cantos de Tuva se não fosse a curiosidade cultural de produtores de um selo americano que nasceu no bojo da World Music. O que seriam daqueles fantásticos músicos cubanos se Ry Cooder não tivesse se prontificado a lançá-los novamente para o mundo depois de tanto tempo de ostracismo? Uns poderiam dizer que isso é oportunismo. Outros diriam que as fusões poderiam afetar a pureza dessa música original, autóctone –  o que é uma grande bobagem – tendo em vista que a música tem essa característica de ser um ser vivo cambiante, em constante mutação sonora e que não precisa de passaporte para ser boa ou ruim. As fronteiras estão na mente de quem quer identificar origens e congelá-las em cubículos inúteis.  A World Music tem, sim, contribuído de forma magnífica para que possamos, ao menos, conhecer o que tem de bom (e de ruim também) do outro lado do mundo. Saber o que o vizinho da América Latina está tocando; quem está produzindo música lá nos confins da Finlândia e até mesmo se dar conta de que existe um pop feito pelos esquimós no Canadá. Conhecer o outro – como dizia Lévi-Strauss – nos faz conhecer a nós mesmos. Por mais banal que essa prerrogativa possa parecer, a música é a arte, que menos fronteiras tem. Ela tem o poder de nos fornecer um “passaporte” virtual sem necessidades de vistos ou alfândegas.   


[1] Alan Merriam, Anthony Seeger,  John Blacking, Bruno Netl e aqui no Brasil, Mário de Andrade, Tiago de Oliveira Pinto e Rafael Menezes entre muitos outros.

Uma vez me perguntaram sobre o público do Mawaca e eu fiquei pensando muito, tentando achar um perfil especifico. Não há um único, porque ele é bem variado. Acho que há mais gente que pertence à classe média, creio eu. Escrevo me baseando no que ouço e vejo e observo nas sessões de autógrafos depois dos shows e no Orkut onde Mawaca tem uma comunidade. Quanto aos jovens, admiradores do Mawaca, são, na sua maioria, estudantes universitários, antenados com o que acontece no mundo, meio hippies no jeito de se vestir, mas não têm a cabeça dos anos 70, não. Talvez sejam, mesmo sem saber, os neo-hippies que seguem a “filosofia” do Mano Chao porque odeiam a globalização. É o que eu chamo de “no-logo generation”. Então, não é jovem de pique “Paz e Amor, bicho”. São mais conscientes politicamente e mais à esquerda, ideologicamente. O que eles curtem no Mawaca? Acho que é a idéia das “tramas étnicas” (termo que eu inventei para falar dessas conexões que rolam entre as músicas de diferentes lugares) e de poder ouvir um pouquinho de cada parte do mundo num único show com temas amarrados de uma forma que faz sentido na cabeça deles. Já perguntei se eles não prefeririam um show com uma temática mais específica (com musica de um único lugar), mas eles insistem em dizer que o barato do Mawaca é a diversidade musical, os ritmos e sons de lugares bem outros. E ai eu me pergunto, seria Mawaca criando uma utopia no palco? Acho que, às vezes, acho que é isso que atrai o nosso público, isto é, uma possibilidade do irreal, de reunir idéias, que na “vida real”, jamais seriam realizadas, como por exemplo, uma canção cantada em árabe e hebraico! Ainda falando de Paz (Salam/Shalom!) rssss). Mas tem aqueles que curtem mais o lance musical, mesmo. Agora, por exemplo, um fã abriu um item no fórum no Orkut para falar sobre os arranjos, os ritmos e conduções harmônicas das músicas do Mawaca. Tem também gente de mais idade, como por exemplo, senhorinhas japonesas que vão sempre aos shows porque gostam e ouvir as canções japonesas que tocamos (acho que deve pintar uma espécie de nostalgia). Têm também senhores judeus cultos que amam os temas hebraicos (e adoram elogiar nossa pronúncia). Há também professores de História, Geografia, Letras e também gente ligada à Educação Musical (alguns deles me disseram que usam os CDs do Mawaca em sala de aula, para introduzir alguns assuntos, trabalhar algum tema especifico etc.) Há uma parcela de intelectuais como os escritores (Milton Hatoum, Heloisa Prieto e Ariano Suassuna que curtem Mawaca); filósofos como a Márcia Tiburi além de psicanalistas (junguianos, principalmente) como o Roberto Gambini, o Carlos Byngton e o Marcos Callia. Há conservadores como Suassuna (que irritou o Antonio Abujamra de tanto nos elogiar num show que fizemos em Salvador recentemente), assim como progressistas articulados como a Carmen Junqueira, antropóloga ativista a mais não poder. Carmen, agora é minha orientadora na PUC e por influência da Betty, virou fã de carteirinha do Mawaca e agora vive levando alunos e amigos para assistir os nossos shows. Tem também, a Betty Mindlin que sempre foi fã do Mawaca. Betty levou o pai dela no show da gravação do DVD e ele ficou encantado e nos chamou de “bruxas” (risos). Isso esta gravado no documentário do DVD Mawaca pra todo canto. Há também alguns músicos que curtem Mawaca! e de A à Z. Vai desde o assistente do Neschling, os maestros José Mauricio Galindo, o Emiliano Patarra, o Guga Petri até Carlos Malta do Pife Muderno, Chico César, Mehmari, Célio Barros, Paulo Beto e Tom Zé (que se entusiasmou com o nosso DVD e quer a todo custo, convencer o agente dele na Europa a levar Mawaca para lá). O que posso dizer, com certeza, é que raramente atingimos a classe alta, aliás, nesse mundo “socialite” poucos sabem que o Mawaca existe (seria essa uma característica dessa classe abastada não se interessar pelo “outro”?) Mas em compensação, no ano passado, fizemos um show no Centro Cultural São Paulo e a faxineira, que limpa o teatro, veio falar comigo depois do show e me contou que decidiu ficar para assistir o show (o que é raro), porque ouviu a passagem de som e ficou encantada. Nunca tinha visto algo parecido. Ela estava animadíssima com um brilho nos olhos. Tocamos no Recbeat durante o Carnaval do ano passado e a moçada estava tão animada que acabou abrindo uma roda no meio da multidão para dançar a Ciranda Indiana. Fizemos show em Diadema com um público que urrava (parecia show de rock!) e outro na favela Monte Azul que foi um sucesso total com descendentes de japoneses dançando Soran Bushi de Hokkaido. Então como dá para perceber, fica difícil definir um único perfil do publico do Mawaca. É beeeem multifacetado. E quando paro pra pensar nesse público tão diversificado, eu fico pensando como é que o Mawaca comunica algo, mesmo cantando em mais de 10 línguas diferentes?

O MAWACA E A WORLD MUSIC

Publicado: janeiro 15, 2007 em Musica, textos

  Ontem (07/01/07) fui na FNAC da Paulista e vi que Mawaca ainda se mantém no Top 10 dos mais vendidos. Eles colocaram em destaque um cartazete do Mawaca (por conta própria porque normalmente esses espaços são pagos, sabia?) ao lado dos DVDs da Daniela Mercury e do Djavan! A informação que eu tive do Marketing da Azul é que o DVD do Mawaca era bem aguardado pelos fãs, informação dada pelos vendedores das lojas. Eles acham que o impacto visual do show, super colorido, o repertório “diferente”, e a performance animada – apesar de não fazermos o estilo “boazudas” e loiras tingidas ((rsss) – é o que chama a atenção. Alguns vendedores alegam que muita gente que não conhecia Mawaca e viu o DVD no telão da FNAC acabou comprando o DVD e o CD também!

Dezembro passado, o pessoal da equipe do Grammy Latino nos sugeriu que cadastrássemos o DVD no prêmio (embora eu ache que não temos a menor chance)

Quer saber? Pode parecer falta de modéstia, mas acho isso tudo uma super vitória. Com uma produção suuuuper independente (isso quer dizer, pouca grana e nada de apoio de leis de incentivo ou patrocínios), sem esquema de marketing (a Azul nos dá um suporte bem mínimo porque não é nossa gravadora, apenas distribui nossos CDs); sem lobbies de produtores da moda; e ainda numa onda oposta à música “comercialóide”, acho que o Mawaca conseguiu transpor uma barreira bem grande nesse mercado (ruinzinho) que há por ai.

O que eu vejo de gente reclamando do mundo dos independentes! Produzir um CD hoje é fácil, mas conseguir vender é que é o X da questão. Conseguir lotar teatros – diante da enorme oferta de shows em São Paulo – também não é fácil…Tocar em Brasília e no Rio sem o menor esquema de divulgação e lotar o teatro também é muito bom. Então, fico contente que tenhamos conseguido alavancar um espaço embora pequeno e alternativo, mas consistente.

Veja bem: Mawaca não faz MPB, nem rock, nem pop, nem sertanejo, nem axé, portanto não se encaixa em nenhum gênero já estabelecido. Se você olhar a World Music que acontece na Europa hoje, não tem nada a ver com o que Mawaca faz. A World Music, assim como o pop e o rock é uma “umbrella” que cobre várias tendências e subgêneros. Mas o que faz sucesso na Europa é a world  music com a verve mais para o pop e para o eletrônico. E Mawaca é acústico demais para os parâmetros deles.

E também há a questão de que não fazemos música tradicional de um único lugar e nem nos especializamos em música “típica brasileira” – o que para eles, não faz sentido, porque afinal, na Europa, a maioria dos artistas que têm feito sucesso por lá, são provenientes dos países colonizados, que vivem em situação de grande pobreza (como os africanos) ou de músicos do Oriente Médio que estão fugindo da guerra. Então, argelinos como Khaled, os malinenses Ali Farka Toure, Oumou Sangare e Amadou e Mariam, Baaba Maal do Senegal, o MC iraniano Erfan, são vistos como filhos legítimos da imigração e soam como “exotique”. Essa legitimidade é que lhes dá credibilidade. Falar em nome do outro (como é o caso do Mawaca) não interessa muito ao europeu, pois eles preferem que os “nativos” falem do seu quintal pro mundo, que revelem o que há de bom no país que deixaram. É um sentimento de “mea culpa” (principalmente no caso dos franceses e ingleses) mesclado é idéia do “politicamente correto”. Então, Mawaca que coloca a música brasileira DENTRO do caldeirão sonoro do mundo (como parte dele), e não como o prato único, parece não fazer sentido para eles. Mas quando Mawaca chega lá em Berlim com o repertório indígena com toque pop-eletrônico, houve uma reação diferenciada. Uns disseram que era “para amar ou odiar”, outros, que havia alguma coisa boa ali acontecendo; e outros, que, diziam que finalmente ouvia-se música brasileira que não era nem bossa nova eletrônica e nem sons da cena pós-mangue beat. Ponto para nós? A ver. Para ser sincera, o mundo da World Music parece saturado de coisas ruins e banalizadas, mas é nele que ainda se aposta, pois o casting dos festivais de jazz e de rock que acontecem na Europa estão recheados de artistas de origem africana, árabe, latina que fazem música dos mais variados estilos, muitos deles pertencentes à cena da World Music. São mais de 300 Festivais de World Music apenas no Verão europeu! O número impressiona ainda mais quando comparado com o Brasil que produz UM festival de World Music por ano em São Paulo (que não aconteceu em 2006, sabe-se lá porque).

O que se alega é que a música brasileira é tão boa (será?) que não precisa de nada de fora (e que na França, por exemplo, como não há musica francesa boa então se ouve world music (será?). Na realidade, essa alegação está carregada de uma  falso nacionalismo, pois a quantidade de artistas do pop e da eletrônica que vieram do exterior para o Brasil em 2006 comprova o contrário: de que brasileiro adora um sotaque estrangeiro, até quando canta “Mas que nada” na versão do Black Eyed Peas (aliás, tinha gente nas areias de Copacabana que perguntava quem era esse tal de Sérgio Mendes ?  mmmm… a nossa musica é tão boa assim que não precisa de nada de fora? Quem quis fazer carreira decente foi pra fora. Acho que Tom Jobim estava certo…. Veja Tom Zé….Tom Zé que nos acuda!

O mercado fonográfico ainda espera um “boom” de vendas milionárias, mas isso é coisa do passado. Não será a World Music a responsável por um possível “boom” nem outro gênero qualquer, porque a realidade da indústria cultural mudou muito com a Internet e os números são outros. Acredito que há muita coisa boa para ser descoberta, para ser ouvida, que passa despercebida pela mídia e que está nessa grande “umbrella” da World Music. Por conta do meu programa de rádio Planeta Som, cada vez mais, me interesso em conhecer o lado B da World Music, e vejo que há pérolas submersas em mares de gosto duvidoso camufladas por um falso sentimento de mestiçagem. Quem mais poderia falar de mestiçagem se não nós mesmos, os brasileiros, que nascemos de uma matriz tríadica, teoricamente impossível de ser combinada?

A MúSICA NO AFEGANISTÃO

Publicado: dezembro 27, 2006 em pesquisas, textos

Em 1987, gravei com o meu grupo Mawaca uma música afegã que foi registrada no primeiro CD da banda com o nome de Aa lalo bacho. No arranjo,  eu fundia o tema afegão com uma cantiga de ninar brasileira, o Tutu Marambá. O arranjo soava um tanto mórbido e dava ares sombrios aos dois temas musicais, embora ingênuos. Alguns anos depois, com os Estados Unidos bombardeando Cabul, li uma matéria na revista Songlines que comentava sobre a queima de instrumentos musicais em praça pública por conta da repressão do Taleban. A música era proibida e quem portasse qualquer instrumento e era preso quem tocasse musica em algum toca-fitas. Aquilo me chocou tremendamente.

Como só conhecia essa canção (retirada de um livro de lullabies), meu interesse pela música desse país cresceu e fui procurar mais informações e sons de lá, tarefa quase impossível. Dai escrevi um texto que resolvi publicar aqui. Agora que queria saber se a musica realmente foi banida do Afeganistão.  

Encontro, hoje, sites com vários gêneros de musicas do Afeganistão e fico pensando se  eles refletem a musica que se faz hoje?. Que mudanças foram provocadas nesse ambiente hostil à musica?

O que será que aconteceu com a música tradicional desse país destruído por uma guerra de mais de 30 anos?

SOBRE A  MÚSICA NO AFEGANISTÃO – escrito em 2003 – revisado em 2006

O Afeganistão vive hoje uma historia de miséria total e corre o risco de perder sua identidade cultural, já que as artes em geral estão completamente banidas da vida da população. Como a vida sem música é impossível, o Taleban sabiamente ‘criou’ uma série de canções que usam melodias tradicionais (a maioria pertencentes ao folclore afegão) que já fazem parte da memória de todos e dessa forma incita a população a se sacrificar pela Jihad.

Os pashtun – maior grupo étnico do país – adoram música, mas depois da guerra civil e principalmente da instalação do Taleban no país, a música é considerada uma arte menor e os músicos são associados à vulgaridade. Em geral, o mundo das artes é visto com preconceito por eles e muitos escondem o interesse por medo de parecerem ‘não respeitáveis’… Apesar dessa atitude limitativa, a música folclórica ainda se preserva em pequenas comunidades e funciona como elemento unificador dessas tribos. Mas é só. Não há atividades musicais freqüentes, e o mercado fonográfico é nulo.

O Taleban decretou em 1996

(… ) Agora que a música é proibida* (exceto as canções do Taliban), não há nada em Kabul que possa aliviar as pessoas do sofrimento. Pelo menos a música fazia os afegãos esquecerem de sua dor e miséria, mesmo se fosse apenas por alguns momentos.

1- São proibidas  a execução de músicas e a danças em festas de casamento. Nenhum tipo de música é permitido.

2- Donos de estabelecimentos ou motoristas portando fitas cassetes serão presos. É proibido tocar tambores.

Mas por que proibir a música se no Alcorão não há nada preciso que indique isso? Alguns pesquisadores alegam que foi por causa dessa mestiçagem que o Taleban proibiu a música, pois as influências externas eram ‘malignas’, mas há quem afirme que a proibição da música no Afeganistão aconteceu por conta do regime Comunista que desvirtuou totalmente o uso da música, colocando-a no nível da diversão pura e simples para meios ilícitos e imorais (diz que o Partido selecionavam adolescentes bonitas para dançarem como prostitutas em festas particulares cujo público era exclusivamente masculino e formado por oficiais do alto escalão). Daí os Taleban passaram a relacionar a música à pornografia.

A palavra, isto é, a poesia, é bem mais respeitada e considerada arte elevada. A forma poética mais conhecida é o Landai – um poema curto de duas frases em geral composto por mulheres. Eles consideram mais importantes os cantores amadores que improvisam sobre uma melodia como o repentista ou cordelista do Nordeste do que os músicos profissionais que tentam manter a tradição.

UM POUCO SOBRE A MÚSICA AFEGÃ E SUA HISTÓRIA

A multiplicidade de etnias forneceu à cultura afegã características muito distintas e uma gama variada de estilos. Resultado de uma mistura entre três grandes regiões: a Ásia Central, o Próximo Oriente e a Índia (com as tradições persas, turcas e mongóis); cada uma delas exerceu uma influência significativa nas várias fases da história afegã. O Afeganistão cujo nome anterior era Ariyana, era assim chamado há um século e meio pelo Rei Ahmad Shah.

A música afegã é profundamente enraizada na tradição folclórica que apesar das proibições ainda consegue sobreviver na memória das pessoas. Há também a música clássica que é também fonte de orgulho para os afegãos e que foi trazida do sub-continente indiano pelos comerciantes muçulmanos que influenciou fortemente a música clássica local. A música afegã sofreu um forte impacto das trilhas sonoras dos filmes indianos de Bollywoody e da música popular do vizinho Irã, que por sua vez absorveu estilos ocidentais.

A diversidade étnica e lingüística da música afegã têm popularizado um número muito grande de música regional e local, como por exemplo: Hazaragi (da região de Hazaragi), Tajiky, Usbaki e Herati.

 

Da música regional, a mais conhecida é a música Herati por causa de suas melodias animadas. A cidade de Herati – localizada na parte oriental do Afeganistão teve sue auge e esplendor no século XVIII durante o período dos comerciantes de TIMURID Shan Rukh e do Sutalo Hussein Baigara, quando se transformou na capital do grande império e o centro cultural do mundo de língua persa.

 

Depois do declínio da música de Herati (por causa da decadência das fortunas locais), pode-se assegurar que a música da cidade passou por várias mudanças durante os séculos seguintes. A mais recente destas mudanças foi a adoção da música de Cabul na década de 30. Mesmo assim, ainda é possível identificar gêneros vocais e instrumentais da música de Herati.

 

Com a adoção da música de Cabul, instrumentos como o harmonium, e o sistema modal usado em Herati se transformou no de Cabul, com a oitava dividida em 12 intervalos iguais, dando uma configuração mais tonal e semelhante ao sistema ocidental.

 

A música de Cabul tem forte relação com a música do Norte da Índia. A conexão, que provavelmente existiu por um longo período, foi consolidada em 1860, quando um número grande de músicos da Índia foram trazidos para Cabul como músicos da corte. Eles mantiveram o conhecimento e a prática da música indiana, e eram capazes de cantar khyal além de formas da música vocal mais livres. Ao mesmo tempo, eles cultivaram e desenvolveram gêneros afegãos da música clássica, como por exemplo, a forma vocal ghazal e o gênero instrumental chamado naghmeh-e-kashal que é sempre relacionado ao instrumento de cordas rebab. Essas peças consistem de três seções principais: o shakl – que apresenta as principais características melódicas do modo em tempo livre; o astai – a composição principal, repetida inúmeras vezes com variações rítmicas e o antar – uma série de pequenas composições tocadas várias vezes cada vez com uma aceleração gradual até terminar a música.

 

Em termos gerais, a musica afegã pode ser dividida em várias categorias: clássica chamada pelos afegãos de KLASSIC e a popular que seria a musica de caráter folclórico ou ligada ao pop.

Dentro da música clássica, pode se dividir duas tendências básicas: em Herat há forte influência da musica iraniana principalmente no que se refere à entonação e em Cabul, a orientação é mais indiana. Divide-se a musica clássica em três categorias: a da poesia cantada que inclui os ghazals, gênero mais leve e bastante popular no Irã, na Ásia Central e no Paquistão. O ghazal é como o primo primeiro dos ghazals indianos e paquistaneses que incluem a poesia sufi do poeta Jalaluddin Rumi que é um dos poetas mais populares no Afeganistão. Há, também, as ragas (no mesmo estilo das clássicas ragas indianas que utiliza as tablas para desenhar os ritmos) e os naghmed que são composições instrumentais.

 

Há muitos músicos afegãos que são descendentes de famílias indianas, porque estas foram para Cabul para tocar na Corte Real durante muitos séculos. A diferença mais marcante entre o estilo afegão e o indiano no que se refere à performance das ragas é que os afegãos destacam mais o ritmo do que a melodia.

 

Os afegãos consideram o rebab o instrumento nacional. Há vários virtuosos do rebab. E na música popular, a maioria das canções folclóricas são acompanhadas por instrumentos como o dutar (espécie de alaúde), o tanbur (outro alaúde), o ghichak, e o dhol (tambor), o tamborim (semelhante ao daf iraniano). Mais recentemente eles têm usado violino, clarinete e violão, já mostrando a influência ocidental na preferência musical.

A rádio afegã, nos anos 50, ajudou a formatar a música moderna afegã tocando versões ocidentalizadas das musica tradicionais. Esse período produziu muitos artistas como a cantora Mahwash que canta no estilo tribal dos pashtu. È seguro dizer que muito da musica praticada no Afeganistão é derivada das festas de casamentos, de nascimentos e outras ocasiões.

 

Durante a guerra civil afegã, muitos músicos conhecidos deixaram Cabul para ser refugiar em Mashhad (cidade vizinha à Herat no Irã). Paquistão, Índia e Europa e América do Norte.

Segundo algumas fontes, a música patrocinada pelo governo comunista estava vinculada unicamente aos slogans do partido e só esses músicos é que conseguiam emprego. Quem não se aliasse aos ditames do partido, não tinha condições de sobreviver como musico. Os músicos que aceitavam fazer parte disse eram freqüentemente vistos e ouvidos nas rádios e TVs locais.

Depois da queda do Comunismo e o com o estabelecimento de uma fragmentada mais forte política religiosa, a música foi proibida. Esse fato dificultou a vida dos músicos profissionais, que tinham pouca oportunidade de tocar em ocasiões como casamentos, festas e os concertos do Ramadan. Quando o Taleban tomou Cabul em 1996, todas as formas de música foram proibidas. Cabul ofereceu aos seus residentes muito pouco em termos de entretenimento, mesmo para os soldados do Taleban que achavam a vida no Afeganistão muito difícil.

Agora que a música é proibida (exceto as canções do Taleban), não há nada em Cabul que possa aliviar as pessoas do sofrimento. Pelo menos a música fazia os afegãos esquecerem de sua dor e miséria, mesmo se fosse apenas por alguns momentos.

 

 

Dessa forma, os artistas afegãos estão descobrindo outras formas de desenvolver, definir e formatar a música afegã para assegurar a tradição e preservar para a geração futura.

 

Atualmente, a musica afegã é toscamente dividida em tradicional, moderna, pós-moderna. As fronteiras entre as diferentes categorias não são muito claras, mas o que define melhor são as eras em que elas aconteceram: período soviético, intra-soviético e pós-soviético. A influência das musicas dos paises vizinhos é forte, mas desde que a musica foi banida pelo Taleban, a maioria da música afegã tem sido criado no exílio. Artistas afegãos têm produzido música nos Estados Unidos e no Canadá. No site Afghanistan Music, há uma enorme lista i de gêneros e estilos da musica afegã, desde os mais populares, até a musica clássica, passando pelo rap, e pela musica pashtun. http://afghanistanmusic.com/

 

P.S. O Afeganistão com uma população entre 20 e 25 milhões de habitantes, tem duas línguas oficiais: Dari da Pérsia antiga e o Pahstu que é uma língua afegã. Dari é uma língua largamente falada em todo o Afeganistão. Na sua forma escrita, se assemelha a língua iraniana. Pashtu é dividido em dois importantes dialetos e é a língua nacional do pais. A maioria dos afegãos são fluentes tanto em Dari como em Pashtun.

 

A World Music – essa desconhecida e rechaçada tendência

Magda Pucci – abril 2006

Do que você gosta? De jazz, de pop, de rock, punk, de axé, de pagode? Qual o seu estilo musical predileto? Essa pergunta está sempre por ai nos atazanando, como se a gente definindo o estilo musical, define a tribo a que pertencemos, não é mesmo? Há um gênero – que inclui diferentes tendências – denominado World Music e que aqui no Brasil ainda engatinha. Dentre os diversos estilos e gêneros musicais da atualidade, a world music tem se mostrado a mais promissora tendência em todos os sentidos, tanto na área do conhecimento humano como no mercado fonográfico, isto é, na industria cultural.

O interesse em torno da música étnica mundial surgiu na década de 70 e veio crescendo vagarosamente até culminar com a atual tendência do multiculturalismo que busca uma visão sem preconceitos para as culturas pouco valorizadas e para as manifestações étnicas periféricas do Terceiro Mundo. A música africana e oriental passou a ser objeto de interesse de muitos pesquisadores e músicos. Hoje, são importantes referências porque mudaram a forma de se pensar a musica no Ocidente.  tanto a música contemporânea, erudita ou popular se transformou pelo contato.

Antes, essa musica era pesquisado por antropólogos e etnomusicólogos<!–[if !supportFootnotes]–>[1]<!–[endif]–> que passavam a viver em lugares isolados como algumas ilhas do Pacífico, aldeias africanas, ou no meio dos esquimós (em geral, locais que tinham se transformado em colônias), por meses a fim de conhecer de perto as tradições musicais desses povos. Hoje vemos “etnomusicólogos informais” na figura de  artistas-produtores cujo interesse pelas formas musicais “diferentes” os levaram a criar novas conexões musicais.

Esse movimento abriu, por assim dizer, as fronteiras da música criando novos caminhos, que hoje já são considerados tendências estabelecidas tais como o Minimalismo assim como o movimento Afro-Pop desencadeado pelo Black is Beautiful e que popularizou a cantora sul-africana Miriam Makeba. Para situar melhor, vamos citar alguns nomes que em diferentes épocas buscaram beber na fonte da “música étnica”, ou melhor, na música do Outro.

Brian Eno, Jon Hassel e Bill Laswell (que juntos realizaram o álbum In the bush of ghosts); David Byrne e Peter Gabriel (que criaram seus selos que difundem artistas do mundo todo); David Fanshawe (inglês que gravou em campo cantos africanos que eram tocados junto com uma orquestra e uma banda de rock); Riuchi Sakamoto (gravou e recriou temas de Okinawa quando a ilha era ainda desprezada pelos japoneses); Steve Reich e Terry Riley (que foram amplamente influenciados pelas estruturas da música clássica indiana e pelos gamelões javaneses); o trompetista Don Cherry; Sun Ra; a dupla George Harrison e Ravi Shankar (que deu bons frutos de fusão do jazz, do pop e da musica erudita com a musica clássica indiana); o produtor Simon Emerson (que produziu o antológico álbum Mustt Mustt de Nusrat Fateh Ali Khan); Hughes de Courson (cujo projetos sugerem misturas inusitadas); Joe Zawinul; Herbie Hancock; Duke Ellington e tantos outros.

Como se pode observar, são artistas das mais diversas tendências musicais provenientes de várias partes do mundo que abriram suas cabeças para ações que ampliam o universo sonoro musical. Cada um à sua maneira, reinventou, recriou, reviveu, reorganizou, refez, enfim, “mexeu” com alguns dos milhares de arquétipos musicais de outras eras e de outros povos mesclando à sua visão de mundo. Os resultados, na sua maioria, são de boa qualidade e muitos deles marcaram época.

Alem dos interesses individuais de alguns músicos, tem sido comum observamos o boom de um determinado estilo por uns tempos. Na década de 70, por exemplo, nós assistimos ao fascínio causada pela música Gnawa marroquina em Jimmi Hendrix, nos Rolling Stones assim como rendeu um álbum com a dupla Robert Plenty  e Jimmy Page. Sex, drugs and world music, eu diria. Na França, teve também o boom do Rai argelino cujo conteúdo altamente político passou desapercebido aqui no Brasil quando virou a música da dança da Feiticeira.

Na onda das fusões, surgiram no mercado, os CDs do produtor Hughes de Courson onde ele mistura Bach com corais africanos, Vivaldi com melodias irlandesas e Mozart com música egípcia. Loucura?  Com extremo bom gosto, esse produtor francês    também advindo do rock – mostrou inventividade ao interligar os elementos fundamentais de cada uma dessas matrizes musicais. David Byrne, alem de ter tirado Tom Zé do ostracismo, criou a série Afropea pelo seu selo Luaka Bop para divulgar artistas portugueses e africanos desvendando uma teia de intersecções musicais interessantíssimas. Mais conhecida foi a parceria do Paul Simon com o grupo vocal sul-africano Ladysmith Black Mambazo. Quem poderia imaginar que o mbube – estilo de cantar das minas da África do Sul – se tornaria tão conhecido no mundo ocidental e que fosse virar tema da trilha do filme infantil ‘The Lion Sleeps Tonight”. Depois disso, Paul Simon se debruça sobre os sons do Brasil e grava com um grupo de meninos tocando tambores do axé baiano.

Atualmente, incontáveis pequenos e médios selos – alguns “braços” de grandes gravadoras – vêm se firmando e assumindo uma parcela razoável do mercado fonográfico mundial. São esses selos que têm explorado as diferentes ramificações da World Music que passam desde o registro da música tradicional gravada in loco  -(Ellipsis Arts, Harmonia Mundi, Ethnic etc.), até as fusões da música étnica com o pop e com o rock, (Rykodisk, Realworld, Stern) assim como as fusões com a musica clássica (Jaro Music) e com a musica eletrônica (muitos!) – onde o uso de samples ‘étnicos’ virou mania total você talvez se lembre do canto dos pigmeus sobre as bases do Deep Forest (uma das primeiras tentativas nesse sentido).

Sem falar nos grupos que misturam música de um lugar e de outro como o Radio Tarifa, Ojos de Brujo, Afro-Celt System entre outros. E gente que transcende a música tradicional e cria novas composições como a indiana Sheila Chandra, o alaudista Rabih Abou Khalil; o palestino Yair Dalal, a húngara Marta Sebéstyen, Yungchen Lhamo entre tantos outros. A world music ganha seu espaço e não faltam termos para definir os vários estilos que surgem.  

A diversidade de tendências propiciou um campo fértil para a produção de CDs de artistas que antes disso não viam perspectiva alguma de se colocar musicalmente fora do seu país de origem. Hoje é comum ver músicos do Nilo, do Leste Europeu, da Finlândia com agendas lotadas por mais de um ano em festivais de música do mundo todo. No inicio desse processo, a porta de entrada era os festivais de jazz, mas hoje, há uma profusão de festivais de World Music, principalmente na Europa que congrega artistas de todos os estilos, alguns com tendência mais pop, outros mais tradicionais.

Os sons étnicos também encantaram pop stars como Madonna e Björk. Madonna lançou um CD com mantras indianos depois de conhecer os princípios da Yoga e do guru Deepak Chopra. Björk, que além de se apresentar com um grupo de esquimós, participou de um acústico na MTV onde ela era acompanhada por uma orquestra de gamelões de Java, tablas indianas harpa celta além de instrumentos vintage. E quem era o tablista de Bjork nesse show? Talvin Singh, o indiano que decolou na cena do asian underground londrino. Hoje produtor requisitadíssimo, a musica de Singh se diferencia dos outros DJs do mundo porque usa as células rítmicas tradicionais das tablas indianas para fazer suas bases eletrônicas.

Outro caso interessante é o do argelino Cheb Mami que ganhou notoriedade quando Sting fez uma participação especial no seu mais recente CD Roses. O mundo pop está a beber das fontes musicais étnicas, como se fossem tônicos revitalizantes.

Felizmente, percebe-se uma agitação intensa em torno de se criar espaços onde essas múltiplas tendências possam ser integrar. Até o momento, são as rádios que mais têm aberto espaço para a world music, como a rede alemã Multikulti SBF4 e a Radio France Internacional. A BBC de Londres já estabeleceu, há alguns anos, um prêmio respeitadíssimo na área de World  Music. A rádio, antes voltada quase que exclusivamente para a musica erudita, abriu espaço para a World Music em programas muito de alto nível com grandes audiências. Revistas como Songlines, FolkRoots, Rhythm Magazine, Mondomix, o jornal Batonga! entre outras vêm mostrando o que acontece nesse universo musical fascinante. Nos Estados Unidos, há a WordlinkTV canal especializado em video-clips de artistas da world music. São mais de 300 festivais ligados a World Music só na Europa que, sem sombra de dúvida, devem estar ampliando o raio de ação desses artistas que não param de aparecer.

No Brasil, a coisa ainda anda lentamente. Muitos artistas da MPB reclamam do termo World Music, se sentem descriminados por causa do rótulo a eles destinado. Mas devemos nos lembrar que esses mesmo músicos devem a existência ou a continuidade de suas carreiras graças a esse mercado da World Music, que os recebe muitíssimo bem lá fora e ainda os coloca sempre em posição quase sempre de destaque nos rankings todos.

O termo World Music foi criado por produtores, na década de 70, com o intuito de “separar” a música de língua anglo-saxônica (isto é: o pop americano e o rock inglês) que se fazia na época, dessa outra música que não só falava outras línguas (latinas, africanas etc. ) como tocavam outros instrumentos, dançavam outros ritmos, usavam outras escalas musicais. Imagine que naquele momento, ouvir o som de um instrumento aborígine australiano ou o canto pigmeu africano em casa, era algo totalmente fora do comum e excitava a imaginação musical de muita gente Evidente que a intenção se resvala numa atitude colonialista (que separava os “civilizados” (eles) dos “primitivos” (nós, do Terceiro Mundo criativo). A necessidade urgente, naquele momento, era estabelecer um lugar nas prateleiras para essa música, digamos, exótica, “diferente” do que se fazia em outros lugares. Se revestido de preconceito ou não, o fato é que o termo adveio de uma necessidade mercadológica e prática: onde colocar essa música que não é rock, nem pop, nem jazz?  O resultado disso foi uma ampliação de um espaço quase inexistente para uma música que nunca esteve presente em loja alguma seja na Europa ou nos Estados Unidos. Essa empreitada foi de tal forma bem sucedida, que criou um mercado suficientemente forte para estimular a criação de um Grammy Latino para tirar do páreo), artistas da  World Music que estavam “roubando” o espaço de estrelas do pop americano. Pior que o preconceito, só é a reserva de mercado…

Quem conheceria os cantos afro-peruanos coletados por Susana Baca se não fosse David Byrne em reconhecê-la com tal? (que diz odiar a World Music mas bebe direto nessa fonte). Como poderíamos conhecer a música cabo-verdiana, se Cesárea Évora não tivesse o reconhecimento e sucesso que teve na França, justamente para fomentar esse mercado de World Music? Seriamos mais pobres, culturalmente falando, se não tivéssemos conhecido o grande talento do cantor paquistanês sufi Nusrat Fateh Ali Khan, que gravou mais de 60 CDs, boa parte deles para alimentar o tal mercado da World Music na França. Como teríamos esperança em unir palestinos e judeus se não fosse Yair Dalal tocando com músicos dos dois lados em projetos pelo mundo todo? Jamais conheceríamos os sons estranhos e maravilhosos dos cantos de Tuva se não fosse a curiosidade cultural de produtores de um selo americano que nasceu no bojo da World Music. O que seriam daqueles fantásticos músicos cubanos se Ry Cooder não tivesse se prontificado a lançá-los novamente para o mundo depois de tanto tempo de ostracismo? Uns poderiam dizer que isso é oportunismo. Outros diriam que as fusões poderiam afetar a pureza dessa música original, autóctone –  o que é uma grande bobagem – tendo em vista que a música tem essa característica de ser um ser vivo cambiante, em constante mutação sonora e que não precisa de passaporte para ser boa ou ruim. As fronteiras estão na mente de quem quer identificar origens e congelá-las em cubículos inúteis.

A World Music tem, sim, contribuído de forma magnífica para que possamos, ao menos, conhecer o que tem de bom (e de ruim também) do outro lado do mundo. Saber o que o vizinho da América Latina está tocando; quem está produzindo música lá nos confins da Finlândia e até mesmo se dar conta de que existe um pop feito pelos esquimós no Canadá.

Conhecer o outro – como dizia Lévi-Strauss – nos faz conhecer a nós mesmos. Por mais banal que essa prerrogativa possa parecer, a música é a arte que menos fronteiras tem. Ela tem o poder de nos fornecer um  “passaporte” virtual sem necessidades de vistos ou alfândegas. 

Aqui no Brasil, no entanto, estamos engatinhando muito nesse pensamento. A World Music inexiste aqui. Talvez por excesso de nacionalismo (um anacronismo terrível, diga-se de passagem), talvez por pura ignorância, não sei bem ao certo, mas o que se verifica é um preconceito crescente com a produção da World Music.

A imprensa, em geral, avacalha qualquer artista que tenha esse rótulo, antes mesmo de conhecer de perto o trabalho do músico ou da banda. Outro grande problema das mídias e das lojas brasileiras é confundir as produções da World Music com os subprodutos da New Age ou colocar no mesmo balaio astros da música internacional brega como Julio Iglesias e adjacentes que seriam evidentemente ligados ao gênero  romântico e não têm nada a ver com o fenômeno da World Music. A desinformação é generalizada. Os sites de música e das lojas de CDs confundem mais ainda a cabeça do consumidor. Como produtora e apresentadora do programa de rádio Planeta Som há mais de 10 anos – cujo foco é a produção da World Music – observo o desespero dos meus ouvintes tentando localizar no mercado os CDs que eu toco.

Mas porque conhecer o outro se a nossa musica é tão boa? – diriam alguns brasileiros… Reiterando a mesma idéia: Toquemos o nosso quintal que ele soará interessante para os outros. Muitos já fizeram isso e se deram bem. O quintal da nossa casa é bonito sim, tivemos uma música boa em algum passado recente. Mas agora, a situação mudou. O pop brasileiro é ruim, a MPB está sem saber para onde ir,  a nossa eletrônica é medíocre, o funk, o hip hop e o rap ganham o apreço de “patricinhas” e “mauricinhos”, não há mais espaço para a musica experimental. E a música brasileira, fragmentada e indecisa, segue desprezando as tradições mais interessantes e deseja a todo custo se equiparar a um “padrão globalizado” das trilhas sonoras das novelas. Segundo Robert Fripp, guitarrista da lendária banda inglesa King Crimson, dizia:  se não tens o que criar, bebe na tradição.

Então, voto aqui para, uma repensar sobre as bases da(s) música(s) dos diversos “povoamentos musicais” que aqui vivem e que não sabemos que existem. Não se trata de resgate de coisa alguma, porque essa musica está viva nas comunidades, nos quilombos, nas rodas de jongo, nas aldeias indígenas, nos pátios das igrejas, na mata. Isso seria uma atitude de resgate de nós mesmos. Porque não conhecemos nada do que acontece nesses lugares. Somos completos ignorantes dessas tradições musicais. Mas tomemos cuidado com o tom, para que não nos tornemos nacionalistas de novo porque isso é coisa de um passado getulista. Vamos começar a ouvir a música de artistas anônimos, de gente que nunca esteve na mídia. Vamos ouvir os CDs produzidos pela Associação Cachuera! que coletou diferentes formas de jongo no Brasil todo como nenhuma outra instituição oficial fez. Vamos reescutar  essas músicas sem xenofobia. Com respeito, mas buscando entender o que ela tem para nos dizer. Se vai misturar com beats eletrônicos ou não, não interessa. Cada um recria da forma como achar melhor. Sejamos ouvintes das músicas daqui e do mundo.

Com esse movimento em torno da world music, é possível se apoiar em outras referências. Muitas delas (a maioria) fogem do padrão globalizante da atual música. Acredita-se que essas referências possam cutucar os parâmetros da mentalidade do público e se transformar na porta para uma possível saída para uma vida musical (e cultural) mais inteligente.

Nos anos 30, Mário de Andrade andou em lombo de boi para gravar o carimbó do Pará, o Boi do Maranhão, mas pelas dificuldades da época, ninguém conseguia ouvir o que ele tinha gravado. Demorou mais de 40 anos para que os CDs com o material de pesquisa das Expedições fossem lançados por uma gravadora de World Music em projeto de Mickey Hart, baterista do Grateful Dead. Vejam como a World Music é útil até mesmo para a música brasileira!

<!–[if !supportFootnotes]–>


<!–[endif]–>

<!–[if !supportFootnotes]–>[1]<!–[endif]–> Alan Merriam, Anthony Seeger,  John Blacking, Bruno Netl e aqui no Brasil, Mário de Andrade, Tiago de Oliveira Pinto e Rafael Menezes entre muitos outros.