Rupestres Sonoros, um ciclo concluído!

Publicado: janeiro 17, 2011 em mawaca, Musica, pensar é só pensar

Ontem a noite, sábado 15 de janeiro de 2011, conclui um ciclo que começou em 2005. É o projeto Rupestres Sonoros que desenvolvi com o Mawaca e que, na minha opinião, deu uma super amadurecida no grupo e criou bases para trabalhos mais autorais, com temáticas mais aprofundadas. Antes, eram temas gerais, linhas soltas, agora as coisas começam a se amarrar e ganhar mais consistência. Não que o que fazíamos antes era inconsistente, mas eram ideias que iam surgindo e sendo colocadas no palco aos poucos, íamos incorporando novas músicas no repertório, tirávamos uma e substituíamos por outra, enfim… os shows iam sendo mexidos a cada “demanda do contratante”, mas Rupestres é diferente. Tem uma proposta clara e bem definida e é isso que oferecemos quando queremos falar de Brasil conectado ao mundo.

É importante lembrar que muita gente dizia que Mawaca NÃO fazia música brasileira, por isso, não poderia ser colocado em projetos brasileiros, tipo festivais que se fazem por ai afora. Sempre éramos colocados de lado, por não sermos MPB ou música autoral…Mas essa nunca foi nossa praia, e nunca será, mas nem por isso deixamos de fazer música brasileira em todos os shows, mas mescladas, sim, com outros elementos, fundindo com outros temas, mixando com ritmos e melodias daqui e dacolá.

Mas nem todos conseguiam captar a mensagem. Houve uma certa resistência porque o Mawaca dos shows Pra todo canto e de Inquilinos do Mundo (repertório balcânico) era muito envolvente, animado, dançante e era isso que as pessoas queriam ver. Índios, argh!!! era coisa meio chata… Mas agora, com Rupestres, mais brasileiros, impossível! Fomos ao Brasil das profundezas dos rupestres, quando o sertão era mar  como foi no Piaui na Serra da Capivara.  Mas dai, tem gente que torce o nariz para a música indígena, diz que é chata, sempre igual, repetitiva, monótona… E então fui lá checar, ver se isso era verdade mesmo… E não é que descobri uma mega diversidade sonora? Estruturas diferentes, sonoridades variadíssimas,  escalas e harmonias estranhas à nossa MPB tão tonal por conta da influencia portuguesa. Explorei isso ao máximo. Fui a fundo em retirar a harmonia tonal desse show, pensar a palavra como o detonador das melodias, os sons dos nomes dos povos indígenas apresentavam uma sonoridade e rítmica tão interessante, tão rica, tão própria… o caminho seria por ai. E mesmo com uma certa resistência das cantoras e instrumentistas do grupo, fui levando o projeto meio na paralela enquanto rolava outro show, o Inquilinos do Mundo e o Pra todo canto. Mas o Rupestres ficava sempre ali, do meu lado, esperando a hora de ser colocado em prática. Fizemos poucos shows experimentais com o repertório indígena como no Moitará dos junguianos em São José dos Campos, na abertura da exposição de bancos indígenas do Museu da Casa Brasileira, no Popkomm na Alemanha (um show sofrível por conta de problemas técnicos e espaço inadequado), entre outros. Mas tudo ainda incipiente, com ideias sendo alinhavadas em tempo real, pouco tempo de ensaio. Mas eis que decidi entregar esse material nas mãos do Xuxa Levy, irmão do acordeonista da banda, Gabriel Levy. Os dois são opostos esteticamente falando. E Xuxa imprimiu um conceito eletrônico sobre os meus arranjos acústicos que deram uma sonoridade contemporânea, ao mesmo tempo que trazia sons de máquina de escrever, de garrafas, de latas, enfim, tecnologia aliada à uma certa rusticidade… era o que eu achava que tinha que ser. Apesar dos protestos de alguns fãs por conta de alguns deslizes em shows com som excessivamente alto (com subwoofer que eu odeio…) fomos alinhavando melhor as ideias, e aos poucos, fui forjando um roteiro que fizesse sentido com a ideia dos rupestres surgida lá no Moitará.  A coisa toda evoluiu e ontem a noite,  no palco do SESC Pinheiros, eu tive a felicidade de ver nascer o novo filhote do Mawaca, o novo DVD Rupestres Sonoros que agora tem registro e existe DE VERDADE. Para mim, enquanto não gravo ou filmo, parece que o ciclo não se fechou… importante isso de deixar registrado, né? Acho fundamental!

Então, Rupestres Sonoros está ai em versão CD e DVD para todos se encantarem, se emocionarem com os cantos indígenas daqui do Brasil. É um momento de encontros com esses povos que pouco conhecemos e que nem mesmo sabemos os nomes. Então, fica aqui registrada a minha alegria de ver esse ciclo concluído.

Aqui vai uma das musicas que eu mais gosto desse show: Tamota Moriorê, tema dos indíos Txucarramãe do Xingu fusionada com uma cantiga japonesa. http://www.youtube.com/watch?v=tvWSpNbtthY

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comentários
  1. Regiane Sodré disse:

    Magda…. não fique triste porque vcs. não tocam nos meios seculares.

    Mawaca veio pra transcender…. trazer de volta sentimento e memorias esquecidas ou até perdidas….. melodia…. gestos…. som….. canções…. danças…. vozes etc….. coisas essas que este mundo, infelizmente, esqueceu.
    Mas…. é com grande alegria que temos Mawaca que resgata tudo isso com elegância e ousadia….
    Vocês merecem todo o sucesso……
    Rupestres está lindo…. quando ouço me sinto na mata…. com pés descalço… sentindo o cheiro da floresta, cheiro de chuva e conectada com a natureza….
    Tenho sempre a honra de divulgar vcs. para quem conheço….. outra vez digo: que MAWACA se espalhe PRA TODO CANTO. Amo vocês. Regiane Sodré

  2. magdapucci disse:

    Não estou nada triste, Regiane. Ao contrário, estou muuuuito feliz por Mawaca ter conquistado esse público maravilhoso e apesar de não termos reconhecimento na grande mídia, a gente vai se alimentando dessa boa energia que o Mawaca transmite em cada show.
    Fico contente de saber que você gosta do Rupestres. Esse foi um CD não muito bem aceito aqui porque demos esse caráter mais contemporâneo para coisa indígena, mas o considero o melhor CD de nossa carreira, sem sombra de dúvida. Acontece que nem todas as pessoas gostam da temática indígena, não se identificam ou não querem se identificar porque índio tem a pecha de ser”primitivo” demais. Por isso, quis trazê-los para a contemporaneidade mesmo com tudo o que temos de direito.
    Continue divulgando o Mawaca PRA TODO CANTO!!!!!!!!!!!!!!!!

  3. Liliane Alves disse:

    Olá, Magda!

    Acho o trabalho do Mawaca uma preciosidade! Sou admiradora profunda do grupo e de você sou fã em especial, porque admira-me muito tua capacidade de tecer sonoridades tão distintas com tanto cuidado e perfeição, o que transmite, a meu ver, todo o seu compromisso ético com o que é étnico. O seu texto acima confirma isso inclusive, todo o respeito em preservar ao mesmo tempo em que torna contemporâneo aquilo que pesquisa. Parabéns pela beleza de idéias e emoções sonoras tão especiais! Obrigada pela alegria de poder nos orgulharmos de um grupo como esse no Brasil. Nossos ouvidos agradecem e se engradecem ao ouvir as músicas do Mawaca.

    Forte abraço, Liliane Alves

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