o poder do canto

Publicado: abril 24, 2007 em Musica, pesquisas

O PODER DO CANTO

Quando uma pessoa canta, algo a impulsiona para isso. Esse canto pode estar relacionado à cura, ao trabalho, à comunicação entre as pessoas, ao prazer estético. Suas funções variam não apenas de povo para povo, mas de classes para classes, de clãs para clãs, de grupos étnicos dentro de um mesmo país.   Citado pelo Tambiah pra falar dos poderes do ritual. Música e dança (ritmo e movimento ritmado) são grandes condutores/decantadores de atividade psíquica, em muitas religiões de transe.  

Vejamos alguns exemplos:

A casta dos cantores MAWAKA no norte da Nigéria evoca, através da palavra cantada, o poder dos espíritos. Assim esses homens cuidam das famílias muçulmanas que os pagam para tal “serviço”. O canto, nesse caso, é um canto de poder, evocatório de entidades que ajudam a família a se manter bem, ou de resolver problemas. Ele tem um papel que se liga ao sagrado, mas ele é exercido como uma profissão qualquer. 

O pajé indígena no Brasil usa de seus dotes vocais para curar pessoas, seu canto vai de murmúrios,  até melodias chorosas que despertam os espíritos da floresta. Com os sons, esse homem evoca os animais e aciona o campo das almas. Ele, em geral, passa uma iniciação espiritual que os coloca numa posição especial dentro do grupo indígena a que pertence. Ele não é um homem comum. Tem o poder da cura e usa sua voz para isso. Não recebe nada para isso, mas ele tem privilégios dentro do seu grupo. 

Os cantores tibetanos obtêm de seus sons graves e guturais uma paisagem sonora capaz de criar uma limpeza mental, um estado de relaxamento e de meditação, necessários nos cultos budistas. Assim esses cantores conseguem obter uma profunda integração com o mundo espiritual. Seu canto é uma oração coletiva que move a todos que assistem. 

O cantor de música popular do mundo ocidental, quando se transforma em ídolo popular pode (ou não) se transformar em agente de causas políticas e ou sociais. Ele simboliza algo que aquela sociedade quer ouvir ou simplesmente exercer o fascínio do poder, do glamour, da ascensão social por ele conquistada.  

Durante o ritual da Paixão, mulheres cantam suas ladainhas com velas acesas na mão. Pedem aos santos que as protejam. Fazem promessas. Com voz aguda e anasalada, elas vivem um dia de purificação. Na Sardenha, homens criam polifonias sonoras de tons graves que imitam o som dos animais. Assim eles exercem seu ofício de pastores. Assim como o aboio do vaqueiro que “conversa” com o boi. Em ambos os casos, o canto é de trabalho, sua função é prática e objetiva.  

O cantor sufi une a música a poesia e com total devoção, improvisa longamente com melismas cheios de energia. Chamam a isso de party, termo cunhado pelos ingleses. Quanto mais esse músico se empolga no improviso (e para isso há uma técnica), mais o grupo que o assiste se emociona e lhe dá mais dinheiro. É puro êxtase!   

No candomblé, o Obaluaiê, chefe espiritual da casa, canta seu oriki, cantiga  do orixá. Ele “recebe o santo” ao som dos tambores que invocam as divindades africanas. Essa junção de ritmo e melodia provoca êxtase em todos que participam do ritual 

Um homem curdo canta canções de amor para uma multidão de curdos num campo de guerra no Iraque. Ele vive exilado. Seu país não existe mais. Seu canto provoca profunda comoção e alegria naqueles que erguem suas metralhadoras.

Que poder esse homem exerce sobre essas pessoas? O que esses cantos têm em comum?  Todos eles parecem atuar no subconsciente coletivo de um grupo. Estão presentes no cotidiano do dia-a-dia ou em situações religiosas. Todos eles exercem o poder do canto. Exercem um poder, de certa forma. Mas omo esses cantos todos se articulam hoje? Como se apresentam para o mundo globalizado?

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comentários
  1. Cyran Costa disse:

    Oi Magda, há tempos que não visitava seu site.

    Gostei muito deste texto sobre o poder do canto! Poder observar a unidade que existe no fenômeno do cantar humano, e ver ao mesmo tempo a grande diversidade no interior de cada cultura…
    Este assunto me deixa muito instigado, e se renova em mim o desejo de pesquisar sobre o tema(especificamente o canto flamenco).
    Grande abraço,
    Cyran

  2. PEDRO BRUNO disse:

    PORQUE É TÃO DIFÍCIL VIVER
    O QUE A GENTE CANTA,
    CANÇÕES MUITAS VEZES SÃO SONHOS,
    MENTIRAS QUE ESCAPAM, FOGEM DA GARGANTA,
    FAZENDO AS PESSOAS, ESCONDEREM A DOR
    OU TORNÁ-LA ROMÂNTICA, PRÁTICA, DE SUPERAR…
    O AMOR ULTRAPASSA A BARREIRA DO SOM,
    E TIRA DO FUNDO, O QUE É RUIM E O QUE É BOM,
    O AMOR TÁ NUM CANTO. E EU, QUE CANTO O AMOR?
    MAS, QUANDO O AMOR TÁ NO CANTO, ENCANTA….

  3. Luiz disse:

    Belo site! visitarei mais vezes! Gostaria de saber se tens interesse em alguns sons de um grupo chamada Kamkars? Tenho aqui algumas gravações muito boas!

    Abraços!

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