a música, o pensamento selvagem e a tecnologia. perdemos ou ganhamos?

Publicado: março 22, 2007 em Musica

 texto “in process”… escrevo isso desde 2002 e sempre faço mudanças, nunca estou satisfeita, mas resolvi botar a cara pra bater e ver no que dá.

a música, o pensamento selvagem e a tecnologia.

Na grande ‘rave’ do novo milênio, o conceito de música contemporânea se amplia e as técnicas e procedimentos eletrônicos ganham espaço rapidamente transformando e se diluindo no oceano de sons imaginários.   Marcada pelos binômios (e não contraposição) da ancestralidade/tecnologia e música/natureza essa nova configuração se deu em parte pela idéia da ambient music já levemente delineada  por C. Debussy e E. Satie, quando a música dos gamelões javaneses e das escalas gregas chegava aos ouvidos europeus. Mais tarde, apareceram John Cage, Brian Eno, Jon Hassel, Terry Riley, Steve Reich, David Byrne, Kraftwerk, Mickey Hart – artistas pertencentes às vanguardas musicais do rock e do pop e da musica erudita que ao se depararem com o ‘sons étnicos’ do planeta, mudaram radicalmente a maneira de conceber suas músicas. E a cada dia, não param de surgir pessoas que se debruçam sobre a tecnologia, recriando os ritmos do planeta dentro da estética eletrônica produzindo músicas passam pelas experimentações mais radicais até as raves do mundo clubber.  A música eletrônica poderia ser considerada a “música étnica” do novo milênio. É a música das ‘tribos’, é a música dos sentidos, é a música dos movimentos pulsantes. A música eletrônica induz ao transe urbano latente das grandes metrópoles. E nesse sentido, se contrapõe e ao mesmo tempo complementa o papel exercido pela música ancestral “étnica” concebida para rituais sagrados de diferentes povos. Unidas pela funcionalidade, tanto a música étnica assim como a eletrônica se complementa com  imagens simbólicas que interagem com efeitos, ruídos, sons ambientes e falas formando um grande painel sonoro onde tribos se reconhecem pelos ritmos e timbres. Tendências como o acid jazz, o trance, techno, lounge, house, drum’ bass, hip-hop perfazem essa função modulada pelas necessidades mais prementes das novas gerações.   A eletrônica, estabelecida não apenas como recurso técnico, mas principalmente como linguagem, estabeleceu novos padrões da percepção musical. Assegurada pelo poder da tecnologia, ela proporcionou várias aberturas na compreensão do fenômeno musical já esgotado pelo discurso lógico-racional da música ocidental.  Reservada aos enormes estúdios dirigidos por excêntricos engenheiros a experimentação na música eletrônica era considerada assunto para gente “estranha”, sem nenhum vínculo com a musica ‘normal’ da época. Era a experiência pela experiência. Stockhausen e seus contemporâneos manipulam os sons como verdadeiros cientistas. Na década de 60, ancorada pelo contato com os ritmos indianos e africanos, a música minimalista passou a explorar os recursos da tecnologia com tamanha liberdade revolucionando o fazer musical.      Steve Reich, na década de 60, alterou esse paradigma ao usar a voz de um mendigo de rua de NY manipulada pelo ring modulators. A edição e manipulação de fitas, a alteração de velocidade do gravador com o intuito de subir e descer a altura dos sons, a  inversão (tocar a fita ao contrário), o uso de delays longos com dois gravadores, loopings, alguns efeitos só possíveis com gravadores analógicos, abriram portas para a concepção de novas estruturas, expandindo o conceito de forma musical, manipulando timbres e alargando os usos da música. Isso tudo parecia apontar para um novo caminho na musica, que não tinha nada a ver com o dodecafonismo shoenbergiano. Significava no momento uma outra porta de entrada para novas opções e realizações musicais.  Mas o que ocorre?  Vem na seqüência a febre dos teclados – que sintetizavam os sons acústicos e além de criar sons espaciais – e que se desencadeou no boom das discotecas. A partir daí, passou-se a usar a eletrônica assiduamente, com efeitos, os pre-sets de teclados e baterias eletrônicas, na busca de um toque popular e dançante. Isso causou uma grande mudança, mas a música culta contemporânea manteve-se ausente desse processo. Parte de suas sérias pesquisas foram parar nas mãos de produtores do mundo pop que absorveram completamente esses recursos eletrônicos. O estúdio se transforma no grande espaço virtual de criação desses produtores. Apoiados por softwares de música cada vez mais sofisticados (e ao mesmo tempo simples de se manipular hoje em dia), o técnico de som é também o artista, o próprio criador (ou artista também teria virado técnico de som?). O instrumentista entra no estúdio para tocar células musicais (ritmos e grooves diferentes) que serão armazenadas numa “biblioteca sonora” que ficará a disposição do produtor para ser usada  em diferentes projetos de trilhas sonoras para publicidade e filmes. O ‘designer do som’ (antes um simples sonoplasta) ou do DJ (antes um simples tocador de discos…) ou do produtor musical (antes o arranjador) passam a ter a mesma importância que tinha o músico “tradicional” que domina as técnicas do “verdadeiro” fazer musical.  Produtores, designers sonoros e DJs tem poderes de interferir radicalmente no resultado final de uma música, explorando recursos da eletrônica como efeitos sonoros os mais variados, edições complexas e mixagens dando origem aos remixes, que viraram moda. São verdadeiros alfaiates dos softwares que desenham cds, projetos, coletivos e uma orgia de sons virtuais que viajam pela net diariamente. Essas figuras atuam como estrelas quando DJs de multidões ou são figuras de suporte do sucesso do som cult de uma Bjork até o pop dançante de uma Madonna, assim como a MPB mais moderna de uma Marisa Monte. Enfim, é inegável que a música eletrônica assumiu um papel fundamental nas produções musicais de hoje. Chega de mega estúdios, de esquemas milionários de produções. O público não olha para a arte nem para o artista e sim para o meio. O DJ é quem faz acontecer. O que ele toca é o que será aceito com convicção pela galera que dança freneticamente nas pistas de uma rave. Não importa mais o conteúdo, nem mesmo a mensagem e muito menos quem é que fez aquela música.   De novo, é o sentido tribal que domina. O corpo “primevo” é o que se move estimulado pelas repetições constantes de um ritmo x ou z, não importa qual. O êxtase, a sensação de “estar solto” transcende todo e qualquer sentido autoral, conceitual, musical etc… O anonimato do autor é parte dessa engrenagem. Quem manipula o som é que merece a atenção, os louros da fama. E nesse sentido, há uma inversão grande de papéis que vem encolerizando cada vez mais os músicos “de verdade”. Para os sociólogos e antropólogos, isso significa a democracia total no meio musical, pois hoje qualquer um pode fazer música com um mínimo de equipamento, no quartinho da casa sem precisar de grandes esquemas. Funkers, rappers, tecnobregas se auxiliam cada vez mais dessa pequena parafernália eletrônica disponível. A periferia também usa e domina a tecnologia. “Tá tudo dominado!” A ordem é produzir o popular com tecnologia mesmo que tosca. Será que atingimos o auge da democratização da música eletrônica? Será que, no fundo foi para isso que ela foi criada? O que pensaria um Stockhausen hoje ao ouvir seus procedimentos eletrônicos serem usados no funk da periferia carioca? É a tecnologia a serviço de um retorno às funções primitivas do homem. Mas ainda ouvem-se ecos de uma insatisfação com a “qualidade” dessa música. Afinal, tanta tecnologia para a criação de uma música “tosca”, que se respalda no obsceno, no engraçadinho, produto de um mundo boçal… o que significa isso? Para essa elite culta e indignada que quer musica “boa”, há uma total decepção no uso que se fez dessa tecnologia. Ela tem um descaso geral sobre a musica produzida –  graças a tecnologia e a rapidez da informação – nas periferias e na cena da música eletrônica da classe média e alta.Percebe-se um cansaço oportuno que provoca em nós uma revisão geral do papel da música e da tecnologia nos dias atuais. O público parece ter desistido de pensar, não quer mais conjecturas nem elocubrações sobre a música e suas histórias. Para a nova geração, a tecnologia tem que ter caráter prático, ser rapidamente útil no dia-a-dia, através dos IPods, dos celulares, da Internet. Para os mais velhos, isso é incompreensível, para os mais cultos, isso é o verdadeiro caos sonoro, para os mais jovens, uma orgia deliciosa de sons a serem desfrutados a qualquer momento. A música precisa estar em toda parte, seja no concreto ou no virtual. Como produto que é, a música necessita ser constantemente substituída por outra a todo o momento para não cansar. Junte-se a isso a velocidade da informação. Diante de tudo isso, é inegável a grande transformação na percepção musical do homem, mas é importante ressaltar que o uso que se faz da musica  não mudou tanto. Aliás, quase nada. Mesmo com tamanha tecnologia, o homem ainda busca quem compartilhe com ele, revivendo o momento tribal, coletivo (hoje os grupos de amigos se auto-intitulam “coletivos” ). O que era antes ritual, hoje é o entretenimento, seja dançar ao som dos tambores ou se esbaldar ao som das picapes numa rave. O sentido tribal ganha novas roupagens e se mantém presente como nunca com ou sem tecnologia. Já que vivemos divididos em tribos, então: Viva a tribo do funk! Viva a tribo do trance! Viva a tribo do pop-rock! Viva a tribo da cultura popular! Viva a tribo do maracatu atômico! Viva o pensamento selvagem!  Mas eu ainda me pergunto: Quem perdeu, quem ganhou?     

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comentários
  1. Fabiano disse:

    Amei o artigo. Parabéns!
    Pesquiso Tambores, a percussão como discurso poético e interdiscurso de resistência cultural. Você poderia me ajudar com alguma informação?
    Obrigado, aguardo contato.
    Fabiano Avelino – Ciência da Arte – UFF.

  2. magda disse:

    Sugiro que voce entre na comunidade no Orkut Antropologia cultural, onde se vem discutindo isso em algum dos topicos. Há muita gente boa que tem colocado dicas de livros e teses que discutem o assunto.

  3. Fabiano disse:

    Obrigado pela atenção e pela dica.
    Abcs, Fabiano

  4. kataxana disse:

    Achei muito interessante a vossa atenção pela música, já que eu adoro a mesma.

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