O MAWACA E A WORLD MUSIC

Publicado: janeiro 15, 2007 em Musica, textos

  Ontem (07/01/07) fui na FNAC da Paulista e vi que Mawaca ainda se mantém no Top 10 dos mais vendidos. Eles colocaram em destaque um cartazete do Mawaca (por conta própria porque normalmente esses espaços são pagos, sabia?) ao lado dos DVDs da Daniela Mercury e do Djavan! A informação que eu tive do Marketing da Azul é que o DVD do Mawaca era bem aguardado pelos fãs, informação dada pelos vendedores das lojas. Eles acham que o impacto visual do show, super colorido, o repertório “diferente”, e a performance animada – apesar de não fazermos o estilo “boazudas” e loiras tingidas ((rsss) – é o que chama a atenção. Alguns vendedores alegam que muita gente que não conhecia Mawaca e viu o DVD no telão da FNAC acabou comprando o DVD e o CD também!

Dezembro passado, o pessoal da equipe do Grammy Latino nos sugeriu que cadastrássemos o DVD no prêmio (embora eu ache que não temos a menor chance)

Quer saber? Pode parecer falta de modéstia, mas acho isso tudo uma super vitória. Com uma produção suuuuper independente (isso quer dizer, pouca grana e nada de apoio de leis de incentivo ou patrocínios), sem esquema de marketing (a Azul nos dá um suporte bem mínimo porque não é nossa gravadora, apenas distribui nossos CDs); sem lobbies de produtores da moda; e ainda numa onda oposta à música “comercialóide”, acho que o Mawaca conseguiu transpor uma barreira bem grande nesse mercado (ruinzinho) que há por ai.

O que eu vejo de gente reclamando do mundo dos independentes! Produzir um CD hoje é fácil, mas conseguir vender é que é o X da questão. Conseguir lotar teatros – diante da enorme oferta de shows em São Paulo – também não é fácil…Tocar em Brasília e no Rio sem o menor esquema de divulgação e lotar o teatro também é muito bom. Então, fico contente que tenhamos conseguido alavancar um espaço embora pequeno e alternativo, mas consistente.

Veja bem: Mawaca não faz MPB, nem rock, nem pop, nem sertanejo, nem axé, portanto não se encaixa em nenhum gênero já estabelecido. Se você olhar a World Music que acontece na Europa hoje, não tem nada a ver com o que Mawaca faz. A World Music, assim como o pop e o rock é uma “umbrella” que cobre várias tendências e subgêneros. Mas o que faz sucesso na Europa é a world  music com a verve mais para o pop e para o eletrônico. E Mawaca é acústico demais para os parâmetros deles.

E também há a questão de que não fazemos música tradicional de um único lugar e nem nos especializamos em música “típica brasileira” – o que para eles, não faz sentido, porque afinal, na Europa, a maioria dos artistas que têm feito sucesso por lá, são provenientes dos países colonizados, que vivem em situação de grande pobreza (como os africanos) ou de músicos do Oriente Médio que estão fugindo da guerra. Então, argelinos como Khaled, os malinenses Ali Farka Toure, Oumou Sangare e Amadou e Mariam, Baaba Maal do Senegal, o MC iraniano Erfan, são vistos como filhos legítimos da imigração e soam como “exotique”. Essa legitimidade é que lhes dá credibilidade. Falar em nome do outro (como é o caso do Mawaca) não interessa muito ao europeu, pois eles preferem que os “nativos” falem do seu quintal pro mundo, que revelem o que há de bom no país que deixaram. É um sentimento de “mea culpa” (principalmente no caso dos franceses e ingleses) mesclado é idéia do “politicamente correto”. Então, Mawaca que coloca a música brasileira DENTRO do caldeirão sonoro do mundo (como parte dele), e não como o prato único, parece não fazer sentido para eles. Mas quando Mawaca chega lá em Berlim com o repertório indígena com toque pop-eletrônico, houve uma reação diferenciada. Uns disseram que era “para amar ou odiar”, outros, que havia alguma coisa boa ali acontecendo; e outros, que, diziam que finalmente ouvia-se música brasileira que não era nem bossa nova eletrônica e nem sons da cena pós-mangue beat. Ponto para nós? A ver. Para ser sincera, o mundo da World Music parece saturado de coisas ruins e banalizadas, mas é nele que ainda se aposta, pois o casting dos festivais de jazz e de rock que acontecem na Europa estão recheados de artistas de origem africana, árabe, latina que fazem música dos mais variados estilos, muitos deles pertencentes à cena da World Music. São mais de 300 Festivais de World Music apenas no Verão europeu! O número impressiona ainda mais quando comparado com o Brasil que produz UM festival de World Music por ano em São Paulo (que não aconteceu em 2006, sabe-se lá porque).

O que se alega é que a música brasileira é tão boa (será?) que não precisa de nada de fora (e que na França, por exemplo, como não há musica francesa boa então se ouve world music (será?). Na realidade, essa alegação está carregada de uma  falso nacionalismo, pois a quantidade de artistas do pop e da eletrônica que vieram do exterior para o Brasil em 2006 comprova o contrário: de que brasileiro adora um sotaque estrangeiro, até quando canta “Mas que nada” na versão do Black Eyed Peas (aliás, tinha gente nas areias de Copacabana que perguntava quem era esse tal de Sérgio Mendes ?  mmmm… a nossa musica é tão boa assim que não precisa de nada de fora? Quem quis fazer carreira decente foi pra fora. Acho que Tom Jobim estava certo…. Veja Tom Zé….Tom Zé que nos acuda!

O mercado fonográfico ainda espera um “boom” de vendas milionárias, mas isso é coisa do passado. Não será a World Music a responsável por um possível “boom” nem outro gênero qualquer, porque a realidade da indústria cultural mudou muito com a Internet e os números são outros. Acredito que há muita coisa boa para ser descoberta, para ser ouvida, que passa despercebida pela mídia e que está nessa grande “umbrella” da World Music. Por conta do meu programa de rádio Planeta Som, cada vez mais, me interesso em conhecer o lado B da World Music, e vejo que há pérolas submersas em mares de gosto duvidoso camufladas por um falso sentimento de mestiçagem. Quem mais poderia falar de mestiçagem se não nós mesmos, os brasileiros, que nascemos de uma matriz tríadica, teoricamente impossível de ser combinada?

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comentários
  1. Cyran Costa disse:

    Olá Magda,

    Belo texto, ponderações muito pertinentes…e à propósito, tens alguma idéia de quando será o festival de World Music no Brasil em 2007!?

    Até,
    Cyran

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