A MúSICA NO AFEGANISTÃO

Publicado: dezembro 27, 2006 em pesquisas, textos

Em 1987, gravei com o meu grupo Mawaca uma música afegã que foi registrada no primeiro CD da banda com o nome de Aa lalo bacho. No arranjo,  eu fundia o tema afegão com uma cantiga de ninar brasileira, o Tutu Marambá. O arranjo soava um tanto mórbido e dava ares sombrios aos dois temas musicais, embora ingênuos. Alguns anos depois, com os Estados Unidos bombardeando Cabul, li uma matéria na revista Songlines que comentava sobre a queima de instrumentos musicais em praça pública por conta da repressão do Taleban. A música era proibida e quem portasse qualquer instrumento e era preso quem tocasse musica em algum toca-fitas. Aquilo me chocou tremendamente.

Como só conhecia essa canção (retirada de um livro de lullabies), meu interesse pela música desse país cresceu e fui procurar mais informações e sons de lá, tarefa quase impossível. Dai escrevi um texto que resolvi publicar aqui. Agora que queria saber se a musica realmente foi banida do Afeganistão.  

Encontro, hoje, sites com vários gêneros de musicas do Afeganistão e fico pensando se  eles refletem a musica que se faz hoje?. Que mudanças foram provocadas nesse ambiente hostil à musica?

O que será que aconteceu com a música tradicional desse país destruído por uma guerra de mais de 30 anos?

SOBRE A  MÚSICA NO AFEGANISTÃO – escrito em 2003 – revisado em 2006

O Afeganistão vive hoje uma historia de miséria total e corre o risco de perder sua identidade cultural, já que as artes em geral estão completamente banidas da vida da população. Como a vida sem música é impossível, o Taleban sabiamente ‘criou’ uma série de canções que usam melodias tradicionais (a maioria pertencentes ao folclore afegão) que já fazem parte da memória de todos e dessa forma incita a população a se sacrificar pela Jihad.

Os pashtun – maior grupo étnico do país – adoram música, mas depois da guerra civil e principalmente da instalação do Taleban no país, a música é considerada uma arte menor e os músicos são associados à vulgaridade. Em geral, o mundo das artes é visto com preconceito por eles e muitos escondem o interesse por medo de parecerem ‘não respeitáveis’… Apesar dessa atitude limitativa, a música folclórica ainda se preserva em pequenas comunidades e funciona como elemento unificador dessas tribos. Mas é só. Não há atividades musicais freqüentes, e o mercado fonográfico é nulo.

O Taleban decretou em 1996

(… ) Agora que a música é proibida* (exceto as canções do Taliban), não há nada em Kabul que possa aliviar as pessoas do sofrimento. Pelo menos a música fazia os afegãos esquecerem de sua dor e miséria, mesmo se fosse apenas por alguns momentos.

1- São proibidas  a execução de músicas e a danças em festas de casamento. Nenhum tipo de música é permitido.

2- Donos de estabelecimentos ou motoristas portando fitas cassetes serão presos. É proibido tocar tambores.

Mas por que proibir a música se no Alcorão não há nada preciso que indique isso? Alguns pesquisadores alegam que foi por causa dessa mestiçagem que o Taleban proibiu a música, pois as influências externas eram ‘malignas’, mas há quem afirme que a proibição da música no Afeganistão aconteceu por conta do regime Comunista que desvirtuou totalmente o uso da música, colocando-a no nível da diversão pura e simples para meios ilícitos e imorais (diz que o Partido selecionavam adolescentes bonitas para dançarem como prostitutas em festas particulares cujo público era exclusivamente masculino e formado por oficiais do alto escalão). Daí os Taleban passaram a relacionar a música à pornografia.

A palavra, isto é, a poesia, é bem mais respeitada e considerada arte elevada. A forma poética mais conhecida é o Landai – um poema curto de duas frases em geral composto por mulheres. Eles consideram mais importantes os cantores amadores que improvisam sobre uma melodia como o repentista ou cordelista do Nordeste do que os músicos profissionais que tentam manter a tradição.

UM POUCO SOBRE A MÚSICA AFEGÃ E SUA HISTÓRIA

A multiplicidade de etnias forneceu à cultura afegã características muito distintas e uma gama variada de estilos. Resultado de uma mistura entre três grandes regiões: a Ásia Central, o Próximo Oriente e a Índia (com as tradições persas, turcas e mongóis); cada uma delas exerceu uma influência significativa nas várias fases da história afegã. O Afeganistão cujo nome anterior era Ariyana, era assim chamado há um século e meio pelo Rei Ahmad Shah.

A música afegã é profundamente enraizada na tradição folclórica que apesar das proibições ainda consegue sobreviver na memória das pessoas. Há também a música clássica que é também fonte de orgulho para os afegãos e que foi trazida do sub-continente indiano pelos comerciantes muçulmanos que influenciou fortemente a música clássica local. A música afegã sofreu um forte impacto das trilhas sonoras dos filmes indianos de Bollywoody e da música popular do vizinho Irã, que por sua vez absorveu estilos ocidentais.

A diversidade étnica e lingüística da música afegã têm popularizado um número muito grande de música regional e local, como por exemplo: Hazaragi (da região de Hazaragi), Tajiky, Usbaki e Herati.

 

Da música regional, a mais conhecida é a música Herati por causa de suas melodias animadas. A cidade de Herati – localizada na parte oriental do Afeganistão teve sue auge e esplendor no século XVIII durante o período dos comerciantes de TIMURID Shan Rukh e do Sutalo Hussein Baigara, quando se transformou na capital do grande império e o centro cultural do mundo de língua persa.

 

Depois do declínio da música de Herati (por causa da decadência das fortunas locais), pode-se assegurar que a música da cidade passou por várias mudanças durante os séculos seguintes. A mais recente destas mudanças foi a adoção da música de Cabul na década de 30. Mesmo assim, ainda é possível identificar gêneros vocais e instrumentais da música de Herati.

 

Com a adoção da música de Cabul, instrumentos como o harmonium, e o sistema modal usado em Herati se transformou no de Cabul, com a oitava dividida em 12 intervalos iguais, dando uma configuração mais tonal e semelhante ao sistema ocidental.

 

A música de Cabul tem forte relação com a música do Norte da Índia. A conexão, que provavelmente existiu por um longo período, foi consolidada em 1860, quando um número grande de músicos da Índia foram trazidos para Cabul como músicos da corte. Eles mantiveram o conhecimento e a prática da música indiana, e eram capazes de cantar khyal além de formas da música vocal mais livres. Ao mesmo tempo, eles cultivaram e desenvolveram gêneros afegãos da música clássica, como por exemplo, a forma vocal ghazal e o gênero instrumental chamado naghmeh-e-kashal que é sempre relacionado ao instrumento de cordas rebab. Essas peças consistem de três seções principais: o shakl – que apresenta as principais características melódicas do modo em tempo livre; o astai – a composição principal, repetida inúmeras vezes com variações rítmicas e o antar – uma série de pequenas composições tocadas várias vezes cada vez com uma aceleração gradual até terminar a música.

 

Em termos gerais, a musica afegã pode ser dividida em várias categorias: clássica chamada pelos afegãos de KLASSIC e a popular que seria a musica de caráter folclórico ou ligada ao pop.

Dentro da música clássica, pode se dividir duas tendências básicas: em Herat há forte influência da musica iraniana principalmente no que se refere à entonação e em Cabul, a orientação é mais indiana. Divide-se a musica clássica em três categorias: a da poesia cantada que inclui os ghazals, gênero mais leve e bastante popular no Irã, na Ásia Central e no Paquistão. O ghazal é como o primo primeiro dos ghazals indianos e paquistaneses que incluem a poesia sufi do poeta Jalaluddin Rumi que é um dos poetas mais populares no Afeganistão. Há, também, as ragas (no mesmo estilo das clássicas ragas indianas que utiliza as tablas para desenhar os ritmos) e os naghmed que são composições instrumentais.

 

Há muitos músicos afegãos que são descendentes de famílias indianas, porque estas foram para Cabul para tocar na Corte Real durante muitos séculos. A diferença mais marcante entre o estilo afegão e o indiano no que se refere à performance das ragas é que os afegãos destacam mais o ritmo do que a melodia.

 

Os afegãos consideram o rebab o instrumento nacional. Há vários virtuosos do rebab. E na música popular, a maioria das canções folclóricas são acompanhadas por instrumentos como o dutar (espécie de alaúde), o tanbur (outro alaúde), o ghichak, e o dhol (tambor), o tamborim (semelhante ao daf iraniano). Mais recentemente eles têm usado violino, clarinete e violão, já mostrando a influência ocidental na preferência musical.

A rádio afegã, nos anos 50, ajudou a formatar a música moderna afegã tocando versões ocidentalizadas das musica tradicionais. Esse período produziu muitos artistas como a cantora Mahwash que canta no estilo tribal dos pashtu. È seguro dizer que muito da musica praticada no Afeganistão é derivada das festas de casamentos, de nascimentos e outras ocasiões.

 

Durante a guerra civil afegã, muitos músicos conhecidos deixaram Cabul para ser refugiar em Mashhad (cidade vizinha à Herat no Irã). Paquistão, Índia e Europa e América do Norte.

Segundo algumas fontes, a música patrocinada pelo governo comunista estava vinculada unicamente aos slogans do partido e só esses músicos é que conseguiam emprego. Quem não se aliasse aos ditames do partido, não tinha condições de sobreviver como musico. Os músicos que aceitavam fazer parte disse eram freqüentemente vistos e ouvidos nas rádios e TVs locais.

Depois da queda do Comunismo e o com o estabelecimento de uma fragmentada mais forte política religiosa, a música foi proibida. Esse fato dificultou a vida dos músicos profissionais, que tinham pouca oportunidade de tocar em ocasiões como casamentos, festas e os concertos do Ramadan. Quando o Taleban tomou Cabul em 1996, todas as formas de música foram proibidas. Cabul ofereceu aos seus residentes muito pouco em termos de entretenimento, mesmo para os soldados do Taleban que achavam a vida no Afeganistão muito difícil.

Agora que a música é proibida (exceto as canções do Taleban), não há nada em Cabul que possa aliviar as pessoas do sofrimento. Pelo menos a música fazia os afegãos esquecerem de sua dor e miséria, mesmo se fosse apenas por alguns momentos.

 

 

Dessa forma, os artistas afegãos estão descobrindo outras formas de desenvolver, definir e formatar a música afegã para assegurar a tradição e preservar para a geração futura.

 

Atualmente, a musica afegã é toscamente dividida em tradicional, moderna, pós-moderna. As fronteiras entre as diferentes categorias não são muito claras, mas o que define melhor são as eras em que elas aconteceram: período soviético, intra-soviético e pós-soviético. A influência das musicas dos paises vizinhos é forte, mas desde que a musica foi banida pelo Taleban, a maioria da música afegã tem sido criado no exílio. Artistas afegãos têm produzido música nos Estados Unidos e no Canadá. No site Afghanistan Music, há uma enorme lista i de gêneros e estilos da musica afegã, desde os mais populares, até a musica clássica, passando pelo rap, e pela musica pashtun. http://afghanistanmusic.com/

 

P.S. O Afeganistão com uma população entre 20 e 25 milhões de habitantes, tem duas línguas oficiais: Dari da Pérsia antiga e o Pahstu que é uma língua afegã. Dari é uma língua largamente falada em todo o Afeganistão. Na sua forma escrita, se assemelha a língua iraniana. Pashtu é dividido em dois importantes dialetos e é a língua nacional do pais. A maioria dos afegãos são fluentes tanto em Dari como em Pashtun.

 

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comentários
  1. bárbara disse:

    Olá,
    Trabalho num programa de rádio semanal e temático que visa divulgar artes e culturas diversas. é o Interferência Cultural. depois de ler uns poucos livros sobre o Afeganistão me interessei pela história e cultura do país. gostei do seu texto e gostaria de saber se podemos usá-lo no programa, como fonte de pesquisa, e também se vc poderia nos enviar alguns links de músicas afegãns.

    muito obrigada,
    Bárbara Cristina

  2. juana disse:

    eu odiei ………. vai te cata e caga gostoso

  3. danielle disse:

    achei muito interesante tem bastante conteudo

  4. Mari!!! disse:

    aiaiaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

  5. Ico Fonseca disse:

    Olá, andava buscando músicas do Afganistão e topei com este site. Sou estudante de Ethnomusicologia, violinista e porfessor no Centro Federal de Educação Tecnológia. Conheço o grupo Mawaca embora não o tenha assistido ao vivo.
    Saudações
    para ouvir minha música. http://www.myspace.com/cafdovento

  6. Fernando Uchoa disse:

    Vou REalizar uma cerimonial de casamento Afeganistao, e por isso peço ajuda a voces, pois preciso de 04 musicas, para realizar o cerimonial, segue a relaçao.
    Marcha nupicial – Ahista Bero
    Reflexao do espelho – Aina Mosaf
    Aplicaçao da hena – HennaMubarak
    Dança dos Noivos – Jashni Arousi

  7. Nikah, disse:

    Estou fazendo um projeto interdisciplinar do livro ‘A Cidade do Sol’ e achei esse conteúdo maravilhoso, já que vou fazer a parte da cultura afegã. Realmente muito útil, já que o anterior, do mesmo Khaled Housseini ‘O Caçador de Pipas’ estão sendo muito comentados. 🙂

    Muito obrigada mesmo !

    Nikah

  8. José disse:

    Muito bom esse conteudo de vocês…
    achei muito legal..
    Obrigado pelo força e seriedade de vcs…

    Ass: José Ferreira

  9. RAFAEL disse:

    PROCUREI QUALQUER MUSICA QUE SEJ MAS NAO ENCONTREI ,SOU FA DESSA CULTURA.
    E GOSTARIA DE ME REALIZAR …
    PODE ME MANDAR UMA LISTA DE MUSICAS PARA SER BAIXADA PELO 4SHARED.COM.
    ESPERO ANCIOSO SUA RESPOSTA .
    SALAM

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