A(s) música(s) que v(ê)m da(s) rua(s)

Publicado: dezembro 23, 2006 em textos

A(s) música(s) que v(ê)m da(s) rua(s)

 

Magda Pucci

 

Sim, o plural reiterado (entre parênteses) é proposital.

Afinal, há músicas e mais músicas, diversas músicas, que vêm das ruas e que não deixam de pertencer a essa categoria singular “a música que vem das ruas”. A rua também é uma e muitas ao mesmo tempo. Elas sempre nos chamam a atenção por algum motivo. Street calls you, como diz o slogan (de um jeans) atualmente estampado nas avenidas de São Paulo. Para falar dessa música que vem da rua, que se inspira na rua, que fala da rua, seria interessante pensar, antes, sobre a rua propriamente dita: de que rua estamos falando? de que tipo de cidade? de que bairros? de que áreas? de que regiões? de que épocas? rua de quem? Pois é, toda rua é um microcosmo, é onde as coisas todas do mundo se condensam, se transmutam e reverberam.

Vamos ao verbete Wikipédia sobre rua:

 

Uma rua é um espaço público (embora possam existir ruas internas em condomínios de acesso privado) no qual o direito de ir e vir é plenamente realizado. Normalmente uma rua caracteriza-se pela existência de duas ou mais calçadas (ou passeios, destinados ao trânsito de pedestres) e um ou mais leitos de tráfego, nos quais os veículos trafegam. Quando é larga ou tem um canteiro central, a rua se torna uma artéria viária, ou seja, uma avenida.

 

De um modo ou de outro, sempre via de mão dupla, é difícil falar em rua de forma definitiva, porque as ruas são artérias de um coração viário que pulsa em diferentes ritmos; podem ser avenidas largas, de velocidade expressa, podem ser ruelas de terra num campo suave, que pontuam um tempo solitário – ou um tempo lento… Mas as ruas todas têm histórias, têm seu ethos e seus habitantes, que têm filosofias e formas de viver que podem variar imensamente. Por essas e outras, torna-se difícil descrever a rua per si, porque ela é feita das pessoas que nela vivem ou mesmo que dela se ausentam – a ausência sendo uma forma de relação com a rua. O que observo, é que toda rua é sempre mão dupla, na medida em que sempre nos chama a atenção para todo seu potencial de ir e vir, seja pelo medo que provoca, seja pelo fascínio que exerce. Ela é, por isso, um espaço de sedução que evoca liberdade.

As cidades são formadas por multidões de “aldeias”, de grupos diferentes, que são como tribos, e a rua é o lugar onde essas pessoas se entrecruzam, se enraízam, buscam abrigo e liberdade. Nas grandes metrópoles, as ruas da periferia parecem ameaçar a todos no modo como a mídia explora sua “rudeza”, de forma pragmática e cruel. E, em contrapartida, vemos muitos muros sendo erguidos em nome de uma segurança contra… contra o quê? Muitas das ruas deste novo milênio se assemelham às cidades fortificadas na Idade Média…

Não é de hoje que se chocam periferias e centros, pobres e ricos, brancos e pretos, madeireiros e índios… A disputa ancestral por espaços é cada vez mais acirrada. “O Haiti é aqui?!” Em tantas ruas do planeta, tanta miséria. E também tanta música! Será que uma precisa da outra? Nos tempos da escravidão no Brasil, as rodas de capoeira eram proibidas pelos senhores do engenho, temerosos dos gestos “violentos” dessa luta. O samba de roda, também “atividade de pobre e preto”, foi desprezado pelas elites urbanas até ser “domesticado” e considerado, então, “cultura” pelos editais dos órgãos oficiais do governo e pela moda ditada na indústria cultural, que é uma coisa chic! Ah, o preconceito era terrível, sim. Mas e hoje, não é? Ele parece persistir, apenas ganhou outras dimensões, mas está aí sempre presente. Veja-se o funk carioca, cuja expressão foi fixada em territórios não freqüentados por brancos-ricos, mas agora é tocado nas danceterias de São Paulo para “patricinhas e mauricinhos” dançarem. A mesma domesticação que houve lá com o samba de roda…?

Há, hoje, um certo fascínio pelo que está fora do centro, aquilo que é marginal, que está na periferia. Acho que todos nós temos um pouco do espírito de Oiticica e, no fundo no fundo, voltamos nosso pensamento para o que diz seu apelo: “Seja Marginal, Seja Herói”, que vinha acompanhado da foto de um bandido morto. Oiticica recolhia pedaços de asfalto na rua para construir “jardins de escombros” no banheiro. Era representante da recorrente apropriação de personagens marginalizados, tônica das artes plásticas dos anos 60 e 70.

Pensando nisso tudo, é bem esquisito ver que ainda vivemos uma contradição entre um valor moral racionalizado, que nos diz que essa música da rua não é boa, não tem qualidade (êita conceito complicado esse!), e o ritmo groovado, bem envolvente e as letras  provocativas, que não se pode negar…

Que marginalidade é essa que legitima e desautoriza ao mesmo tempo? Se a música da periferia pode causar tanta atração e tanta repulsa ao mesmo tempo, é porque ela é, de fato, uma música que está na rua, que se faz na rua, é da rua. E o que é que essa rua tem, que vira-e-mexe nos põe em contato com uma outra música?

Desde os tempos medievais, a música que vinha das ruas, nas vilas, sem conotação religiosa era responsável pela diversão de seus habitantes. Os menestréis contavam histórias e cantavam animando as pessoas que, quando não estavam entregues ao trabalho, dançavam e bebiam…

 

Oy comamos, Y bebamos,

y cantemos y holguemos,

que mañana ayunaramos

 

Esses versejos de um trovador espanhol, Juan del Encina, revelam essa relação do divertimento com a conjugação de comilança, dança e música. Só que a Igreja execrava essa comunhão: a música deveria “servir apenas ao espírito”. (E assim, ao divertir, não servia ao espírito?!) Contrariado com o sucesso de canções populares como essa, a Igreja tentou, por todos os meios, estabelecer regras rígidas para a música, procurando evitar esse “contato promíscuo” com textos e escalas musicais nada nada santos… A partitura de Oy comamos, no entanto, figura hoje nos grandes acervos de música antiga da Europa como representante modelar do villancico – importante forma musical da transição da Idade Média para o Renascimento. De canto de vila, isto é, de rua, transformou-se em cultura oficial.

E haveria alguma relação do villancico medieval com a música produzida na vila do morro carioca?

 

Quem nasce lá na Vila

nem sequer vacila

ao abraçar o samba

Que faz dançar os galhos do arvoredo

E faz a lua nascer mais cedo

 

…cantava Noel Rosa. A música da vila medieval e a de Santa Isabel, no Rio, mantêm a função primordial de dar sentido à vida, exprimindo o que é essência do lugar, é local.

O interesse pelos sons que vêm da rua se dava também no Romantismo europeu. Nesse período, vários compositores como Tchaikovsky, Prokofiev, Mussorgsky compuseram sobre temas folclóricos que eram cantados nas rodas populares, nos espaços públicos das cidades. Até mesmo Stravinsky, representante da música moderna do início do século passado, compôs uma grande obra – Les Noces (As bodas) – na qual utiliza temas do folclore russo cantados pelos camponeses nas vielas durante um casamento tradicional.

Na verdade, qualquer panorama histórico-musical que tracemos nos permite observar que, ao longo dos séculos, a rua é o lugar onde uma profusão de idéias fervilha, é na rua que as pessoas se encontram diariamente, lugar onde criam, produzem e reproduzem coisas, que geram, então, outras coisas, que, por sua vez, geram outras… (sobre a palavra coisa, eu decidi assumi-la depois que Moacir Santos nomeou suas músicas de “Coisa n.1”, “Coisa n. 2”, uma analogia ao opus das obras eruditas, adorei isso!). A verdade é que sempre surge uma “antena” que capta aqueles sons que lhe servem como fonte de inspiração poética e musical, e aí a música que era da rua vira a música do mundo. Foi assim e assim é.  

Só que hoje há um aspecto peculiar a ser considerado: o folclore se elitizou, isto é, muitos estudantes universitários e intelectuais é que se ocupam de registrar e dar espaço a essas manifestações; e a música “clássica”, antes considerada pertencente apenas à classe dominante, agora envolve jovens de favelas em projetos de ONGs. A MPB, cuja sigla carrega o termo “popular”, já virou “música culta”, tendo em vista que vende bem menos do que vendia antes (já que o parâmetro de popularidade é o número de vezes que toca no rádio e/ou aparece na TV e/ou a quantidade de cópias vendidas).

O sertanejo e o pagode, que já foram considerados gêneros da periferia (leia-se de fora do centro) tempos atrás, deixaram de ser apenas música de e para as classes menos favorecidas e agora circulam nas classes média e alta de qualquer cidade do país. A música sertaneja, que teve raiz na moda de viola caipira, do interior, que fala com o r puxaaaado, é uma música de rua, veio das estradas do mundo rural. O pagode vem do bar daquela viela torta do morro carioca. Ambos foram gerados na periferia e agora rendem alguns bons milhões no mercado fonográfico central, portanto são o mainstream!

O mesmo fenômeno está acontecendo com o hip hop, que inclui o rap, o break, o grafite e o beatbox, expressões que dão cara aos movimentos de uma perifa que vive uma espécie de universo paralelo, numa rua calcada nas mazelas sociais e na violência constante. Antes à margem da indústria cultural, o hip hop também vive agora sua transformação em produto de consumo maciço, veiculado pelos grandes meios de comunicação. O break foi o que primeiro apareceu na mídia. Era a dança de rua, feita na rua, criada na rua, crescida na rua, que atraía a mídia e os jovens, tanto da periferia como dos grandes centros. O rap idem: veio das ruas e ganhou as manchetes das revistas norte-americanas do pop e do rock. Está presente na MTV com uma série de video-clips e é bancado pelas grandes gravadoras. Só para citar duas notícias muito expressivas disso: Eminem se tornou o primeiro rapper a ganhar um Oscar e recentemente fez uma parceria com a Nike para vender tênis; a dupla de hip hop Outkast estourou nas pistas com 10 milhões de discos vendidos e dois prêmios Grammy, façanha conseguida apenas pelos Beatles.

Lucio Ribeiro, que escreve na Folha de S. Paulo, diz: Faz tempo que o hip hop saiu dos guetos musicais e deixou de ser apenas música agressiva e exclusivista para ser música popular, de novela, também para ricos e participar até como braço forte de transformações de vanguarda dentro da música eletrônica. O hip hop virou hip pop. Segundo o jornalista, Gangsta, Jay-Z e P. Diddy trocaram os medalhões de ouro e as camisetas de time de basquete por ternos caríssimos para mudar suas imagens.

Então, vemos que a(s) música(s) da(s) rua(s) pertence(m) a um terreno movediço onde não há centro fixo e nem periferia delimitada. Há uma mudança constante, um deslocamento contínuo… a periferia pode virar centro e o centro pode virar periferia… Seria aquela idéia de mar virar sertão e sertão virar mar, de Antônio Conselheiro?

Fato é que se trata de um movimento consistente e, assim, tem uma filosofia que o sustenta. O poeta e escritor Reginaldo Ferrez, considerado um dos mais importantes representantes da periferia de São Paulo (vive no bairro Capão Redondo), reclama dos efeitos surgidos com a transmissão do documentário produzido por Falcão do MVBill, em que ele apresenta imagens dos bastidores da “vida bandida”, dos marginais que viram heróis no programa Fantástico da TV Globo. Ferrez está cansado de ver a violência sempre relacionada com a sua “perifa”, prefere que ela seja reconhecida não pela sua miséria, mas pela poesia produzida por lá, pela arte que realizam.

 

Não sou santo no bagulho, tenho defeitos e muitos, por sinal , mas vamos deixar claro um barato, tiozão, num vem jogar arroz em falso casamento, que, aí, é subestimar demais a rapaziada da favela. Pra quem não sabe, há eventos aqui, quermesses, shows na rua, teatros ao ar livre, saraus. Mas isso não atrai, felicidade não dá Ibope. Meu povo não é só aquilo, imagens borradas, desesperança em todas as quebradas. Somos mais, muito mais. Só quero dizer que temos que refletir, tantos meninos tiveram que morrer para alguém vender mais CDs, documentários etc. É isso? Apenas isso?

 

Ferrez preserva a idéia inicial do Movimento hip hop, cujo nome foi criado pelo DJ Afrika Bambata, fundador da organização Zulu Nation, que tem como cerne o ativismo político. Essas formas de organização foram surgindo em Nova York na passagem dos anos 60 para os 70, para falar da vida dos guetos negros e latinos. Hoje, há muitos representantes espalhados pelos quatro cantos do planeta, dos países latinos aos orientais, passando pela Europa e pela África.  Em cada região o rap adquire algumas características bem particulares, e nunca esconde a influência da matriz norte-americana.  

Mas há muito mais música de rua do que o Movimento hip hop. Há músicos de rua que fazem parte de uma “marginália imigrante”, cuja platéia são os transeuntes. São músicos de rua, literalmente, que cantam histórias de outras ruas, de outros lugares, de outros mundos, de outros guetos. Em São Paulo, por exemplo,  ouvimos um bocado de coisas do velho e bom Nordeste, e também da música que vem da América Latina, ainda que desfigurada e puída. A música, para esses artistas, é “cultura de subsistência”.

Recentemente, o saxofonista e compositor Livio Tragtenberg deu início a um projeto Neurópolis com a Orquestra de Músicos de Rua de São Paulo, no qual leva para os palcos do SESC músicos que tocam embolada, samba, forró, música paraguaia, além de outros temas latinos e também temas japoneses, representando uma diversidade que beira o caótico. A idéia básica da orquestra, segundo Livio, é combinar músicos de rua (“genéricos”) sobreviventes e que atuam “conforme a vontade do freguês” e músicos oriundos de comunidades imigrantes importantes na formação da cidade de São Paulo e que praticam suas tradições musicais com seus instrumentos típicos. Livio conta que não foi fácil encontrar músicos nas ruas do centro de São Paulo, pois a cidade está cada vez mais agressiva e o centro da cidade passou a ser um local de passagem. As pessoas não param no centro, elas usam o centro para ir de um lugar a outro. Os músicos de rua costumam brincar dizendo que, depois das duas da tarde, eles só tocam para “desempregados e vagabundos”. Esses artistas que recebem pouca atenção na rua, agora sobem no palco e vivem momentos de prestígio. A marginália do centro fazendo as vezes de centro da cultura culta.

Nesse caso, como noutros, vemos o centro desta mega-cidade deixar de ser centro… é marginal, é fora do eixo… é um pouco suburbano, um pouco submundo, é submerso na poluição sonora das buzinas dos carros apressados e dos motores desregulados dos ônibus… Mas, o que para muitos pode ser um tormento, para outros pode ser fonte de inspiração. Tom Zé, por exemplo, é um grande revelador da musicalidade do cotidiano das ruas, dos sons urbanos, das feiras, das fábricas e dos eletrodomésticos. É quase uma visão cageana sobre o mundo da música.

John Cage, compositor da vanguarda norte-americana, tentou, por todos os meios, entender o que era o verdadeiro silêncio. Ele chegou a criar uma peça chamada 4´33“: um pianista se sentava ao piano como se fosse tocar uma obra musical, mas se mantinha em completo silêncio durante 4 minutos e 33 segundos, sem tocar uma nota sequer do instrumento à sua frente. O público, para Cage, deveria ouvir, então, os sons externos da rua, como as buzinas dos carros que passavam por ali, passos dos transeuntes, barulhos de ambulâncias, assim como os ruídos internos do espaço, como as tosses e comentários furtivos do público (cada vez mais inquieto diante do inaudito silêncio do pianista). A música 4´33´´comprova que não há silêncio no mundo. É “o silêncio não-silencioso”:

O silêncio, não existe isso (pausa de trinta segundos e ouçam). Se é assim, silêncio é ruído? (pausa de trinta segundos). Silêncio é uma caixa de possibilidades. Tudo pode acontecer para quebrá-lo. O silêncio é a característica mais cheia de possibilidades da música. (…) O silêncio soa.

 

(Silence (1993). Lectures and Writings by John Cage. New England: Wesleyan University Press.)

 

Na outra ponta, afastando-se dos centros urbanos, o cineasta Roberto Berliner produziu o documentário Som da rua, quando embarcou numa expedição sonora rumo às periferias nos estados do Nordeste, nos do Norte e em Minas, locais por onde filmou músicos desconhecidos do grande público. Berliner se viu imerso num Brasil que muitos de nós desconhecemos. O Som da Rua representa um murmúrio constante ouvido nas esquinas das cidades brasileiras. São histórias de pessoas que entoam canções, que improvisam versos, que recitam cordéis, que tocam instrumentos toscos na calçada, ampliando suas vozes com microfones de qualidade duvidosa e amplificadores de segunda mão equilibrados num banquinho. É a rua sertaneja, evangélica, caipira, social, cheia de humores e rumores que Berliner nos apresenta. Como se vê, não dá para colocar a rua só no singular. A rua é uma entidade, mas é plural, um lugar de múltiplas facetas, que reflete o mundo das formas mais inusitadas… Streets call us!

 

 

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