A World Music – essa desconhecida e rechaçada tendência

Publicado: dezembro 23, 2006 em textos

A World Music – essa desconhecida e rechaçada tendência

Magda Pucci – abril 2006

Do que você gosta? De jazz, de pop, de rock, punk, de axé, de pagode? Qual o seu estilo musical predileto? Essa pergunta está sempre por ai nos atazanando, como se a gente definindo o estilo musical, define a tribo a que pertencemos, não é mesmo? Há um gênero – que inclui diferentes tendências – denominado World Music e que aqui no Brasil ainda engatinha. Dentre os diversos estilos e gêneros musicais da atualidade, a world music tem se mostrado a mais promissora tendência em todos os sentidos, tanto na área do conhecimento humano como no mercado fonográfico, isto é, na industria cultural.

O interesse em torno da música étnica mundial surgiu na década de 70 e veio crescendo vagarosamente até culminar com a atual tendência do multiculturalismo que busca uma visão sem preconceitos para as culturas pouco valorizadas e para as manifestações étnicas periféricas do Terceiro Mundo. A música africana e oriental passou a ser objeto de interesse de muitos pesquisadores e músicos. Hoje, são importantes referências porque mudaram a forma de se pensar a musica no Ocidente.  tanto a música contemporânea, erudita ou popular se transformou pelo contato.

Antes, essa musica era pesquisado por antropólogos e etnomusicólogos<!–[if !supportFootnotes]–>[1]<!–[endif]–> que passavam a viver em lugares isolados como algumas ilhas do Pacífico, aldeias africanas, ou no meio dos esquimós (em geral, locais que tinham se transformado em colônias), por meses a fim de conhecer de perto as tradições musicais desses povos. Hoje vemos “etnomusicólogos informais” na figura de  artistas-produtores cujo interesse pelas formas musicais “diferentes” os levaram a criar novas conexões musicais.

Esse movimento abriu, por assim dizer, as fronteiras da música criando novos caminhos, que hoje já são considerados tendências estabelecidas tais como o Minimalismo assim como o movimento Afro-Pop desencadeado pelo Black is Beautiful e que popularizou a cantora sul-africana Miriam Makeba. Para situar melhor, vamos citar alguns nomes que em diferentes épocas buscaram beber na fonte da “música étnica”, ou melhor, na música do Outro.

Brian Eno, Jon Hassel e Bill Laswell (que juntos realizaram o álbum In the bush of ghosts); David Byrne e Peter Gabriel (que criaram seus selos que difundem artistas do mundo todo); David Fanshawe (inglês que gravou em campo cantos africanos que eram tocados junto com uma orquestra e uma banda de rock); Riuchi Sakamoto (gravou e recriou temas de Okinawa quando a ilha era ainda desprezada pelos japoneses); Steve Reich e Terry Riley (que foram amplamente influenciados pelas estruturas da música clássica indiana e pelos gamelões javaneses); o trompetista Don Cherry; Sun Ra; a dupla George Harrison e Ravi Shankar (que deu bons frutos de fusão do jazz, do pop e da musica erudita com a musica clássica indiana); o produtor Simon Emerson (que produziu o antológico álbum Mustt Mustt de Nusrat Fateh Ali Khan); Hughes de Courson (cujo projetos sugerem misturas inusitadas); Joe Zawinul; Herbie Hancock; Duke Ellington e tantos outros.

Como se pode observar, são artistas das mais diversas tendências musicais provenientes de várias partes do mundo que abriram suas cabeças para ações que ampliam o universo sonoro musical. Cada um à sua maneira, reinventou, recriou, reviveu, reorganizou, refez, enfim, “mexeu” com alguns dos milhares de arquétipos musicais de outras eras e de outros povos mesclando à sua visão de mundo. Os resultados, na sua maioria, são de boa qualidade e muitos deles marcaram época.

Alem dos interesses individuais de alguns músicos, tem sido comum observamos o boom de um determinado estilo por uns tempos. Na década de 70, por exemplo, nós assistimos ao fascínio causada pela música Gnawa marroquina em Jimmi Hendrix, nos Rolling Stones assim como rendeu um álbum com a dupla Robert Plenty  e Jimmy Page. Sex, drugs and world music, eu diria. Na França, teve também o boom do Rai argelino cujo conteúdo altamente político passou desapercebido aqui no Brasil quando virou a música da dança da Feiticeira.

Na onda das fusões, surgiram no mercado, os CDs do produtor Hughes de Courson onde ele mistura Bach com corais africanos, Vivaldi com melodias irlandesas e Mozart com música egípcia. Loucura?  Com extremo bom gosto, esse produtor francês    também advindo do rock – mostrou inventividade ao interligar os elementos fundamentais de cada uma dessas matrizes musicais. David Byrne, alem de ter tirado Tom Zé do ostracismo, criou a série Afropea pelo seu selo Luaka Bop para divulgar artistas portugueses e africanos desvendando uma teia de intersecções musicais interessantíssimas. Mais conhecida foi a parceria do Paul Simon com o grupo vocal sul-africano Ladysmith Black Mambazo. Quem poderia imaginar que o mbube – estilo de cantar das minas da África do Sul – se tornaria tão conhecido no mundo ocidental e que fosse virar tema da trilha do filme infantil ‘The Lion Sleeps Tonight”. Depois disso, Paul Simon se debruça sobre os sons do Brasil e grava com um grupo de meninos tocando tambores do axé baiano.

Atualmente, incontáveis pequenos e médios selos – alguns “braços” de grandes gravadoras – vêm se firmando e assumindo uma parcela razoável do mercado fonográfico mundial. São esses selos que têm explorado as diferentes ramificações da World Music que passam desde o registro da música tradicional gravada in loco  -(Ellipsis Arts, Harmonia Mundi, Ethnic etc.), até as fusões da música étnica com o pop e com o rock, (Rykodisk, Realworld, Stern) assim como as fusões com a musica clássica (Jaro Music) e com a musica eletrônica (muitos!) – onde o uso de samples ‘étnicos’ virou mania total você talvez se lembre do canto dos pigmeus sobre as bases do Deep Forest (uma das primeiras tentativas nesse sentido).

Sem falar nos grupos que misturam música de um lugar e de outro como o Radio Tarifa, Ojos de Brujo, Afro-Celt System entre outros. E gente que transcende a música tradicional e cria novas composições como a indiana Sheila Chandra, o alaudista Rabih Abou Khalil; o palestino Yair Dalal, a húngara Marta Sebéstyen, Yungchen Lhamo entre tantos outros. A world music ganha seu espaço e não faltam termos para definir os vários estilos que surgem.  

A diversidade de tendências propiciou um campo fértil para a produção de CDs de artistas que antes disso não viam perspectiva alguma de se colocar musicalmente fora do seu país de origem. Hoje é comum ver músicos do Nilo, do Leste Europeu, da Finlândia com agendas lotadas por mais de um ano em festivais de música do mundo todo. No inicio desse processo, a porta de entrada era os festivais de jazz, mas hoje, há uma profusão de festivais de World Music, principalmente na Europa que congrega artistas de todos os estilos, alguns com tendência mais pop, outros mais tradicionais.

Os sons étnicos também encantaram pop stars como Madonna e Björk. Madonna lançou um CD com mantras indianos depois de conhecer os princípios da Yoga e do guru Deepak Chopra. Björk, que além de se apresentar com um grupo de esquimós, participou de um acústico na MTV onde ela era acompanhada por uma orquestra de gamelões de Java, tablas indianas harpa celta além de instrumentos vintage. E quem era o tablista de Bjork nesse show? Talvin Singh, o indiano que decolou na cena do asian underground londrino. Hoje produtor requisitadíssimo, a musica de Singh se diferencia dos outros DJs do mundo porque usa as células rítmicas tradicionais das tablas indianas para fazer suas bases eletrônicas.

Outro caso interessante é o do argelino Cheb Mami que ganhou notoriedade quando Sting fez uma participação especial no seu mais recente CD Roses. O mundo pop está a beber das fontes musicais étnicas, como se fossem tônicos revitalizantes.

Felizmente, percebe-se uma agitação intensa em torno de se criar espaços onde essas múltiplas tendências possam ser integrar. Até o momento, são as rádios que mais têm aberto espaço para a world music, como a rede alemã Multikulti SBF4 e a Radio France Internacional. A BBC de Londres já estabeleceu, há alguns anos, um prêmio respeitadíssimo na área de World  Music. A rádio, antes voltada quase que exclusivamente para a musica erudita, abriu espaço para a World Music em programas muito de alto nível com grandes audiências. Revistas como Songlines, FolkRoots, Rhythm Magazine, Mondomix, o jornal Batonga! entre outras vêm mostrando o que acontece nesse universo musical fascinante. Nos Estados Unidos, há a WordlinkTV canal especializado em video-clips de artistas da world music. São mais de 300 festivais ligados a World Music só na Europa que, sem sombra de dúvida, devem estar ampliando o raio de ação desses artistas que não param de aparecer.

No Brasil, a coisa ainda anda lentamente. Muitos artistas da MPB reclamam do termo World Music, se sentem descriminados por causa do rótulo a eles destinado. Mas devemos nos lembrar que esses mesmo músicos devem a existência ou a continuidade de suas carreiras graças a esse mercado da World Music, que os recebe muitíssimo bem lá fora e ainda os coloca sempre em posição quase sempre de destaque nos rankings todos.

O termo World Music foi criado por produtores, na década de 70, com o intuito de “separar” a música de língua anglo-saxônica (isto é: o pop americano e o rock inglês) que se fazia na época, dessa outra música que não só falava outras línguas (latinas, africanas etc. ) como tocavam outros instrumentos, dançavam outros ritmos, usavam outras escalas musicais. Imagine que naquele momento, ouvir o som de um instrumento aborígine australiano ou o canto pigmeu africano em casa, era algo totalmente fora do comum e excitava a imaginação musical de muita gente Evidente que a intenção se resvala numa atitude colonialista (que separava os “civilizados” (eles) dos “primitivos” (nós, do Terceiro Mundo criativo). A necessidade urgente, naquele momento, era estabelecer um lugar nas prateleiras para essa música, digamos, exótica, “diferente” do que se fazia em outros lugares. Se revestido de preconceito ou não, o fato é que o termo adveio de uma necessidade mercadológica e prática: onde colocar essa música que não é rock, nem pop, nem jazz?  O resultado disso foi uma ampliação de um espaço quase inexistente para uma música que nunca esteve presente em loja alguma seja na Europa ou nos Estados Unidos. Essa empreitada foi de tal forma bem sucedida, que criou um mercado suficientemente forte para estimular a criação de um Grammy Latino para tirar do páreo), artistas da  World Music que estavam “roubando” o espaço de estrelas do pop americano. Pior que o preconceito, só é a reserva de mercado…

Quem conheceria os cantos afro-peruanos coletados por Susana Baca se não fosse David Byrne em reconhecê-la com tal? (que diz odiar a World Music mas bebe direto nessa fonte). Como poderíamos conhecer a música cabo-verdiana, se Cesárea Évora não tivesse o reconhecimento e sucesso que teve na França, justamente para fomentar esse mercado de World Music? Seriamos mais pobres, culturalmente falando, se não tivéssemos conhecido o grande talento do cantor paquistanês sufi Nusrat Fateh Ali Khan, que gravou mais de 60 CDs, boa parte deles para alimentar o tal mercado da World Music na França. Como teríamos esperança em unir palestinos e judeus se não fosse Yair Dalal tocando com músicos dos dois lados em projetos pelo mundo todo? Jamais conheceríamos os sons estranhos e maravilhosos dos cantos de Tuva se não fosse a curiosidade cultural de produtores de um selo americano que nasceu no bojo da World Music. O que seriam daqueles fantásticos músicos cubanos se Ry Cooder não tivesse se prontificado a lançá-los novamente para o mundo depois de tanto tempo de ostracismo? Uns poderiam dizer que isso é oportunismo. Outros diriam que as fusões poderiam afetar a pureza dessa música original, autóctone –  o que é uma grande bobagem – tendo em vista que a música tem essa característica de ser um ser vivo cambiante, em constante mutação sonora e que não precisa de passaporte para ser boa ou ruim. As fronteiras estão na mente de quem quer identificar origens e congelá-las em cubículos inúteis.

A World Music tem, sim, contribuído de forma magnífica para que possamos, ao menos, conhecer o que tem de bom (e de ruim também) do outro lado do mundo. Saber o que o vizinho da América Latina está tocando; quem está produzindo música lá nos confins da Finlândia e até mesmo se dar conta de que existe um pop feito pelos esquimós no Canadá.

Conhecer o outro – como dizia Lévi-Strauss – nos faz conhecer a nós mesmos. Por mais banal que essa prerrogativa possa parecer, a música é a arte que menos fronteiras tem. Ela tem o poder de nos fornecer um  “passaporte” virtual sem necessidades de vistos ou alfândegas. 

Aqui no Brasil, no entanto, estamos engatinhando muito nesse pensamento. A World Music inexiste aqui. Talvez por excesso de nacionalismo (um anacronismo terrível, diga-se de passagem), talvez por pura ignorância, não sei bem ao certo, mas o que se verifica é um preconceito crescente com a produção da World Music.

A imprensa, em geral, avacalha qualquer artista que tenha esse rótulo, antes mesmo de conhecer de perto o trabalho do músico ou da banda. Outro grande problema das mídias e das lojas brasileiras é confundir as produções da World Music com os subprodutos da New Age ou colocar no mesmo balaio astros da música internacional brega como Julio Iglesias e adjacentes que seriam evidentemente ligados ao gênero  romântico e não têm nada a ver com o fenômeno da World Music. A desinformação é generalizada. Os sites de música e das lojas de CDs confundem mais ainda a cabeça do consumidor. Como produtora e apresentadora do programa de rádio Planeta Som há mais de 10 anos – cujo foco é a produção da World Music – observo o desespero dos meus ouvintes tentando localizar no mercado os CDs que eu toco.

Mas porque conhecer o outro se a nossa musica é tão boa? – diriam alguns brasileiros… Reiterando a mesma idéia: Toquemos o nosso quintal que ele soará interessante para os outros. Muitos já fizeram isso e se deram bem. O quintal da nossa casa é bonito sim, tivemos uma música boa em algum passado recente. Mas agora, a situação mudou. O pop brasileiro é ruim, a MPB está sem saber para onde ir,  a nossa eletrônica é medíocre, o funk, o hip hop e o rap ganham o apreço de “patricinhas” e “mauricinhos”, não há mais espaço para a musica experimental. E a música brasileira, fragmentada e indecisa, segue desprezando as tradições mais interessantes e deseja a todo custo se equiparar a um “padrão globalizado” das trilhas sonoras das novelas. Segundo Robert Fripp, guitarrista da lendária banda inglesa King Crimson, dizia:  se não tens o que criar, bebe na tradição.

Então, voto aqui para, uma repensar sobre as bases da(s) música(s) dos diversos “povoamentos musicais” que aqui vivem e que não sabemos que existem. Não se trata de resgate de coisa alguma, porque essa musica está viva nas comunidades, nos quilombos, nas rodas de jongo, nas aldeias indígenas, nos pátios das igrejas, na mata. Isso seria uma atitude de resgate de nós mesmos. Porque não conhecemos nada do que acontece nesses lugares. Somos completos ignorantes dessas tradições musicais. Mas tomemos cuidado com o tom, para que não nos tornemos nacionalistas de novo porque isso é coisa de um passado getulista. Vamos começar a ouvir a música de artistas anônimos, de gente que nunca esteve na mídia. Vamos ouvir os CDs produzidos pela Associação Cachuera! que coletou diferentes formas de jongo no Brasil todo como nenhuma outra instituição oficial fez. Vamos reescutar  essas músicas sem xenofobia. Com respeito, mas buscando entender o que ela tem para nos dizer. Se vai misturar com beats eletrônicos ou não, não interessa. Cada um recria da forma como achar melhor. Sejamos ouvintes das músicas daqui e do mundo.

Com esse movimento em torno da world music, é possível se apoiar em outras referências. Muitas delas (a maioria) fogem do padrão globalizante da atual música. Acredita-se que essas referências possam cutucar os parâmetros da mentalidade do público e se transformar na porta para uma possível saída para uma vida musical (e cultural) mais inteligente.

Nos anos 30, Mário de Andrade andou em lombo de boi para gravar o carimbó do Pará, o Boi do Maranhão, mas pelas dificuldades da época, ninguém conseguia ouvir o que ele tinha gravado. Demorou mais de 40 anos para que os CDs com o material de pesquisa das Expedições fossem lançados por uma gravadora de World Music em projeto de Mickey Hart, baterista do Grateful Dead. Vejam como a World Music é útil até mesmo para a música brasileira!

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<!–[if !supportFootnotes]–>[1]<!–[endif]–> Alan Merriam, Anthony Seeger,  John Blacking, Bruno Netl e aqui no Brasil, Mário de Andrade, Tiago de Oliveira Pinto e Rafael Menezes entre muitos outros.

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